A Câmara Municipal de Campo Grande oficializou nesta sexta-feira (6) a instalação da CPI do Tapa-Buraco, comissão que vai vasculhar contratos e execuções da recomposição asfáltica na capital. A primeira reunião já tem data marcada: segunda-feira (9). O que os vereadores encontrarem pode redesenhar a forma como a cidade cuida do próprio asfalto.
O colegiado tem prazo regimental de 120 dias — prorrogáveis — e poder de requisitar documentos, convocar testemunhas e enviar conclusões ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas. Mas o foco declarado não é apenas punir: a meta é propor um novo modelo de contratação para a conservação viária.
Quem comanda e como a composição foi desenhada
A presidência ficou com Luiza Ribeiro (PT), parlamentar da oposição ao Executivo. A relatoria coube a Dr. Vitor Rocha (PSDB). Completam o grupo Dr. Lívio (União Brasil), Beto Avelar (Progressistas) e Leinha (Avante). O presidente da Casa, Papy (PSDB), defendeu o equilíbrio da chapa: ter vereadores da base e da oposição no mesmo colegiado, segundo ele, garante profundidade sem paralisar os trabalhos.
Na prática, a presidência definirá o calendário e a ordem das oitivas — se começam por depoimentos ou pela análise documental. O relatório final deverá apontar responsabilidades, mas com olhos voltados para soluções estruturais.
O gatilho: orçamento despencou quase 70% em um ano
O pedido de CPI reuniu 24 assinaturas em outubro. O documento-base expõe uma redução brutal nos recursos previstos para o projeto de Modernização e Requalificação das Vias Urbanas:
- 2025: R$ 132 milhões
- 2026: R$ 40 milhões
- Queda: cerca de 70%
Paralelamente, o Ministério Público já conduz 12 ações de improbidade administrativa e uma ação criminal sob sigilo — a Operação “Buraco Sem Fim”, que prendeu o coordenador dos serviços, Edvaldo Aquino, e outros investigados. As apurações apontam fraudes na medição: pagamentos por serviços não executados ou feitos pela metade.
Usina ociosa e silêncio do Executivo
Outro ponto que intriga os parlamentares é a subutilização da usina de pavimentação do Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Regional. A estrutura tem capacidade para produzir 120 toneladas/hora de CBUQ — massa asfáltica de menor custo operacional —, mas não estaria sendo aproveitada a contento.
No primeiro semestre de 2026, a Câmara aprovou pedido formal de informações sobre as obras viárias. O prazo regimental venceu sem resposta da prefeitura. No mesmo período, dos 24,6 mil pedidos de providências encaminhados à administração, quase 9 mil tratavam exclusivamente de buracos.
Canal direto com o morador e próximos passos
A comissão vai reativar um canal de WhatsApp para que a população envie fotos, vídeos e relatos de serviços malfeitos ou pavimento descolado. O número ainda não foi divulgado, mas a promessa é de que o cidadão vire fiscal direto do dinheiro público.
Na segunda-feira (9), os cinco vereadores definem calendário, ordem de depoimentos e quais documentos requisitar primeiro. As conclusões seguirão para MPMS e TCE-MS, com sugestões de alteração nos editais de licitação — a ideia é trocar contratos pontuais de “tapa-buraco” por acordos amplos de conservação da malha viária.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo e o impacto real desta CPI: a velocidade na obtenção de documentos que o Executivo até agora não entregou, a adesão popular ao canal de denúncias e a disposição política para transformar recomendações em mudanças legislativas. Se o relatório final resultar em um novo marco contratual para a conservação asfáltica, o legado da comissão ultrapassa a investigação — vira política pública. Acompanhe as atas das reuniões e os pedidos de informação protocolados: eles serão o termômetro real da profundidade desta apuração.
