A Sony superou as estimativas do mercado com um lucro operacional de 622,3 bilhões de ienes no segundo trimestre — alta de 45% que elevou a projeção anual em 9%. No mesmo período, a Nintendo viu o lucro recuar 16%, para 73,9 bilhões de ienes, frustrando analistas. Duas empresas japonesas, mesmo setor, realidades opostas.
O que separa as duas não é sorte. É portfólio, timing e exposição a uma crise que atinge todo o setor: a escassez de chips de memória impulsionada pelo boom de inteligência artificial.
O motor por trás da Sony: diversificação que amortece o choque
O conglomerado não depende apenas de jogos. A divisão de sensores de imagem — líder mundial no fornecimento para smartphones — e o braço de música compensaram a queda de 35% nas vendas do PlayStation 5 (2,6 milhões de unidades contra 4 milhões um ano antes).
O filme “Homem-Aranha: Um Novo Dia” injetou receita de bilheteria direta no resultado. A expectativa em torno do lançamento de “GTA 6” neste mês também funciona como catalisador para o ecossistema PlayStation, mesmo que o título não seja exclusivo.
Mas há um limite. O CFO Lin Tao admitiu que preços mais altos de memória pressionam as margens. A Apple, nesta mesma semana, alertou para compressão de margens no trimestre de festas pelo mesmo motivo.
Nintendo: a aposta no Switch 2 e o vazio de grandes lançamentos
A queda de lucro da Nintendo reflete um ciclo de produto no fim da vida. O Switch original envelhece, e o sucessor — projetado para 16,5 milhões de unidades no ano fiscal de 2026 — ainda não tem data confirmada nem line-up de peso.
Shuntaro Furukawa, presidente da empresa, afirmou que a situação de fornecimento de memória está sob controle e descartou novos aumentos de preço. O lançamento de “The Legend of Zelda: Ocarina of Time” nesta quinta-feira (5) traz alívio pontual, mas analistas como Serkan Toto, da Kantan Games, não veem títulos “system-seller” até o próximo ano fiscal.
- Sony: lucro operacional de ¥622,3 bi (+45% a/a); previsão anual elevada 9%
- Nintendo: lucro operacional de ¥73,9 bi (-16% a/a); meta de 16,5 mi Switch 2 mantida
- PS5 vendido no trimestre: 2,6 milhões (-35% a/a)
- Fator comum: escassez e alta de preços de memória DRAM/NAND
A memória como variável oculta para ambos os lados
A Sony disse em julho ter garantido volume suficiente para o ano. A Nintendo repete o discurso. Ainda assim, o custo unitário sobe — e isso comprime margens ou força repasses de preço que podem frear demanda.
O mercado precificou otimismo: as ações da Sony subiram 7% nos dias anteriores ao balanço, revertendo o medo de que a IA pudesse desvalorizar seu modelo de negócios. A Nintendo, por sua vez, negocia em território mais cauteloso, dependente de uma transição de hardware que ainda não começou de fato.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis vão ditar a trajetória de curto prazo: a capacidade de a Sony sustentar engajamento ativo na PSN enquanto investe na próxima geração (esperada para 2028); a data real de anúncio e lançamento do Switch 2, com line-up à altura; e a evolução dos preços de memória, que afeta desde smartphones até servidores de IA.
Para investidores e executivos, o recado é claro: diversificação de receita e gestão de cadeia de suprimentos deixaram de ser detalhes operacionais — são a diferença entre superar expectativas ou apenas sobreviver ao ciclo.
