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Você não vai acreditar: senador vota dos EUA enquanto ignora STF…

Senador Flávio Bolsonaro vota remotamente dos EUA durante sessão do Senado que aprovou PEC da Segurança Pública
Flávio Bolsonaro vota do exterior ignorando determinação do STF, enquanto Senado silencia sobre sua ausência.

Há dez dias o Senado mantém silêncio total sobre a situação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que deixou o Brasil em 27 de outubro e, na terça-feira (3), registrou presença e votou remotamente na sessão que aprovou a PEC da Segurança Pública. A omissão da Mesa Diretora impede saber se o parlamentar comunicou o afastamento, se as faltas serão contabilizadas e se salários e verbas de gabinete seguem sendo pagos normalmente.

O parlamentar contrariou ordem do ministro Alexandre de Moraes (STF) para entregar os passaportes, viajou ao Equador e seguiu aos Estados Unidos com documento italiano. Dois inquéritos correm no Supremo: um por suposta lavagem de dinheiro ligada a bets e outro sobre pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse”. O foro privilegiado vigora até janeiro de 2027.

O voto que ninguém explica

Na quarta-feira (28), a Agência Brasil perguntou se Flávio teria acesso ao Sistema de Deliberação Remota (SDR). Dias depois, ele votou. A Mesa não confirmou se houve autorização prévia, nem se a participação valida a presença para fins regimentais. O artigo 55 da Constituição prevê perda de mandato para quem faltar a um terço das sessões ordinárias sem justificativa legal.

Randolfe Rodrigues (PT-AP) apresentou questão de ordem pedindo esclarecimentos e a anulação do voto. “Ele pede exílio alegando ditadura, mas quer participar do Parlamento dessa ‘ditadura'”, afirmou. Davi Alcolumbre (União-AP), presidente da Casa, disse que analisará o caso com assessores.

Dinheiro público: a conta não fecha

Além do salário de R$ 44 mil, o senador recebe verbas indenizatórias e de pessoal. A assessoria da Casa não informou se há bloqueio previsto. No dia 31, advogados ingressaram com ação popular na 6ª Vara Federal do Rio pedindo a interrupção dos pagamentos. Para Leonardo Nicolau Passos Marinho, um dos autores, a votação remota não invalida a ação: “O próprio senador manifestou intenção de se estabelecer nos EUA, o que exige abandonar o mandato”.

  • Salário bruto: R$ 44.008,52
  • Verba de gabinete: até R$ 111.615,00/mês (conforme estado)
  • Cota parlamentar: reembolsos por atividade legislativa
  • Mandato termina: janeiro de 2027

A fuga pelos bastidores

A ordem de Moraes atendeu a pedido da Polícia Federal no inquérito das bets. Flávio alega perseguição política. Usou passaporte italiano e avião executivo para chegar aos EUA. O advogado Willer Tomaz também é investigado no mesmo processo. O segundo inquérito apura repasses de Vorcaro, dono do extinto Banco Master, para a produção do documentário sobre Jair Bolsonaro.

A assessoria de Flávio não respondeu aos questionamentos da reportagem. O Senado, idem.

O que Alcolumbre vai decidir

A resposta da Presidência do Senado deve ditar os próximos passos. Três cenários estão na mesa: reconhecer a licença retroativamente, abrir processo no Conselho de Ética por descumprimento de ordem judicial ou manter o status quo — o que fortaleceria a tese de que parlamentares podem votar de qualquer lugar sem prestar contas à Mesa.

Enquanto isso, a ação popular tramita e a oposição promete pressionar por transparência. O silêncio de dez dias já virou precedente.

O que observar daqui pra frente

Acompanhe a posição formal de Alcolumbre nos próximos dias: ela definirá se o Senado aceita participação remota sem comunicação prévia de afastamento. Se a resposta for positiva, abre-se brecha para que qualquer parlamentar vote do exterior sem licença. Se negativa, o voto de terça-feira pode ser anulado e as faltas, contabilizadas — o que, somado a eventuais sanções éticas, acelera o risco de perda de mandato. Para investidores e analistas de risco político, o desfecho sinaliza o grau de autonomia do Legislativo frente ao Judiciário e a disposição da Casa em fazer cumprir o próprio regimento.