Economia

Guerra do delivery: iFood acusa Keeta de “involução” chinesa e áudios comprometedores

iFood processa Keeta Meituan por preços predatórios no delivery brasileiro
Batalha judicial entre iFood e Keeta pode redefinir mercado de delivery no Brasil.

O iFood ingressou na Justiça contra a Keeta, braço brasileiro da gigante chinesa Meituan, acusando a rival de praticar preços predatórios financiados pelo caixa da matriz para sufocar a concorrência. A ação, distribuída à 1ª Vara Empresarial de São Paulo, revela uma estratégia que o aplicativo brasileiro classifica como “involução de mercado” — um fenômeno que, segundo o processo, fechou 1,61 milhão de estabelecimentos na China. O desfecho pode ditar as regras do jogo para restaurantes, entregadores e consumidores nos próximos meses.

A denúncia de “involução” e o precedente de Hong Kong

O termo central da ação é neijuan, conceito chinês que descreve uma competição irracional onde todos perdem. O iFood alega que a Keeta replica no Brasil o roteiro aplicado em Hong Kong: subsídios massivos e cupons agressivos até a saída da concorrente Deliveroo, seguidos pelo aumento de comissões de 15% para 35% e corte na remuneração dos entregadores.

No Brasil, a operação começou no litoral paulista no final de 2024 e chegou à capital em dezembro. Desde então, a Keeta oferece cupons de até R$ 200, descontos de 60%, entrega gratuita e comissão fixa de 9,9%. A receita líquida, segundo o autor da ação, permanece negativa — sinal de que a operação queima caixa para ganhar participação.

Áudios, ex-funcionários e a caça aos exclusivos

Além da guerra de preços, o processo detalha uma ofensiva direta contra a base de restaurantes parceiros do iFood. A petição inclui gravações de áudio nas quais um gerente da Keeta admite que a equipe foi montada para abordar estabelecimentos com contratos de exclusividade.

  • Contratação de ex-funcionários do iFood para mapear e abordar alvos prioritários;
  • Oferta de pagamento de multas contratuais para romper a exclusividade;
  • Tentativa de acesso a dados confidenciais protegidos por cláusulas de sigilo.

O iFood pede liminar para proibir preços abaixo do custo, o aliciamento de parceiros exclusivos e o uso indevido de informações sensíveis. A ação solicita ainda perícia econômica para dimensionar o volume de subsídios e indenização por danos materiais e morais (R$ 200 mil).

A defesa: monopólio de 80% e investigação no Cade

Em resposta, a Keeta nega as acusações e contra-ataca: acusa o iFood de usar o Judiciário para blindar sua posição dominante, estimada em 80% do mercado. A empresa chinesa argumenta que os cupons são prática padrão do setor — inclusive pelo próprio iFood — e servem para atrair consumidores em um mercado “bloqueado por cláusulas de exclusividade e banimento”.

Há um capítulo paralelo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), onde o iFood é investigado por suposto descumprimento de acordo firmado com a autarquia justamente sobre cláusulas de exclusividade. A Keeta afirma estar em 32 cidades, contra a capilaridade nacional do rival, e se apresenta como única alternativa viável para quebrar o que chama de “monopólio disfuncional”.

O risco da demanda artificial para restaurantes e entregadores

O ponto mais sensível para o ecossistema não está nas acusações mútuas, mas na sustentabilidade do modelo. O iFood alerta que a demanda criada por subsídios é artificial: quando o capital da matriz secar, os cupons desaparecem, as comissões sobem e a base de entregadores encolhe — cenário idêntico ao observado em Hong Kong.

Para o empresário do setor, a equação é perigosa: margens comprimidas hoje em troca de dependência de uma plataforma que pode alterar as regras unilateralmente amanhã. O processo expõe a fragilidade de negócios que migram atraídos por incentivos temporários sem contratos de proteção de longo prazo.

O que observar nas próximas semanas

A decisão sobre a liminar será o primeiro termômetro: se a Justiça aceitar o argumento de preço predatório, a Keeta terá de readequar sua estrutura de custos no Brasil imediatamente, o que pode frear a expansão agressiva. Em paralelo, o andamento do inquérito no Cade sobre as cláusulas de exclusividade do iFood pode equilibrar — ou complicar — o tabuleiro regulatório.

Enquanto o judiciário não decide, a guerra dos cupons continua. A recomendação prática para donos de restaurantes é auditar a dependência de qualquer plataforma única, calcular o custo real de aquisição de cliente sem subsídios e exigir clareza contratual sobre prazos e multas antes de migrar ou aderir a novas redes. O vencedor dessa disputa não será quem tem mais caixa, mas quem conseguir transformar volume em receita sustentável.