Justiça

Justiça proíbe veto a contratação por viés político e multa em R$ 10 mil

Gavel sobre balança da justiça com documento judicial que proíbe veto político em contratações
Justiça do Trabalho da PB proíbe discriminação política nas contratações e aplica multa de R$ 10 mil.

A Justiça do Trabalho da Paraíba determinou a remoção imediata de uma publicação em que um empresário do setor artístico declarava não contratar profissionais identificados com determinado espectro político. A decisão, divulgada nesta sexta-feira (6), estabelece multa de R$ 10 mil por descumprimento e vedação expressa a qualquer estímulo à discriminação no ambiente de trabalho.

O caso expõe um risco jurídico que muitos empreendedores ainda subestimam: a confusão entre opinião pessoal e prática empresarial discriminatória. O que parecia um desabafo em rede social transformou-se em ação civil pública com consequências financeiras e reputacionais.

O episódio que gerou a ação

No dia 26 de outubro, data posterior ao segundo turno das eleições presidenciais, o empresário Francinaldo Bandeira — ex-presidente da associação carnavalesca Via Folia e representante do bloco Vumbora — publicou um vídeo no Instagram. Na gravação, afirmava: “Esses artistas que são anti-bolsonaro, não se preocupem, eu nunca mais contrato vocês”.

A fala foi interpretada pelo Ministério Público do Trabalho na Paraíba (MPT-PB) como conduta discriminatória baseada em convicção política. O órgão ajuizou ação civil pública argumentando que a manifestação, embora feita em perfil pessoal, refletia política de contratação de quem atua no mercado de entretenimento.

Determinações judiciais: o que ficou proibido

A sentença vai além da remoção do conteúdo original. O juízo estabeleceu um rol de condutas vedadas, aplicáveis a qualquer meio — presencial ou virtual:

  • Estimular, incitar ou orientar outros empregadores a discriminar trabalhadores por crença ou posicionamento político;
  • Incentivar a não contratação, dispensa, desligamento ou perseguição de profissionais;
  • Praticar ou compartilhar conteúdos que configurem assédio ou coação eleitoral;
  • Repostar ou disseminar manifestações com teor discriminatório.

O prazo para exclusão do vídeo é de quatro horas contadas da intimação. A publicação já não estava acessível nas plataformas do empresário até o fim da tarde desta sexta-feira.

Por que isso importa para qualquer negócio

A decisão reforça entendimento consolidado no Tribunal Superior do Trabalho: a liberdade de expressão não autoriza o empregador a tornar critérios políticos, ideológicos ou religiosos em filtros de contratação ou permanência. O artigo 1º da Lei 9.029/95 proíbe expressamente práticas discriminatórias no acesso ao emprego.

Para o setor de eventos e entretenimento — onde contratos são frequentemente informais e redes de indicação pesam mais que processos seletivos estruturados —, o precedente acende um alerta. Uma fala pública do dono do negócio pode ser usada como prova de política institucional discriminatória, mesmo que não haja registro formal de recusa a currículos.

O custo da improvisação jurídica

Além da multa diária por descumprimento, a ação civil pública pode gerar indenização por dano moral coletivo. Valores costumam ser revertidos a fundos de direitos difusos ou entidades de defesa do trabalhador. O empresário, em nota, afirmou que respeitará a decisão e buscará “apaziguar os ânimos”.

Mas o dano de imagem já está colocado. Empresas que dependem de patrocínios públicos, editais de cultura ou parcerias institucionais tornam-se vulneráveis a questionamentos de compliance após episódios semelhantes.

O que observar daqui para frente

O MPT tem ampliado a atuação no monitoramento de redes sociais de empregadores e gestores. Publicações que configurem ameaça velada ou direta de retaliação profissional por posicionamento político passam a ser alvo prioritário de inquéritos civis.

Para gestores e donos de negócio, a lição prática é clara: separar a esfera da opinião pessoal da responsabilidade institucional. Treinamentos de compliance para lideranças, políticas escritas de diversidade e canais de denúncia deixam de ser “boas práticas” e tornam-se escudos necessários num cenário de fiscalização ativa.