O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, desenhou um cenário de risco claro: reduzir a Selic à força, sem lastro fiscal, fará a curva longa de juros — a referência real para financiamentos de empresas e famílias — disparar. O aviso foi dado durante a apresentação do balanço do terceiro trimestre, enquanto o governo debate novas âncoras para a política econômica.
Maluhy não nega o desejo por juros estruturalmente menores. O ponto central é a sequência lógica: sem credibilidade fiscal, a tentativa de encurtar o ciclo de queda produz o efeito inverso no prazo onde o crédito efetivamente acontece.
O efeito dominó no bolso do financiamento
Quando a taxa longa sobe, o custo do capital de giro, do imóvel e do veículo acompanha. O executivo resumiu a mecânica: o Banco Central até pode forçar a ponta curta, mas o mercado precifica o risco futuro na ponta longa. Resultado: crédito mais caro para quem produz e consome, anulando o estímulo inicial.
Essa dinâmica coloca o setor produtivo e as famílias na linha de frente do ajuste. Não há almoço grátis: a conta da expansão monetária sem lastro chega via prêmio de risco nas curvas de juros futuros.
O que o governo diz e o que o mercado espera
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afastou a hipótese de tabelamento de juros, classificando o debate atual como especulação. Maluhy corroborou a leitura: não há proposta concreta na mesa, apenas sugestões acadêmicas.
Para o Itaú, a prioridade zero é a definição da equipe econômica e de sua estratégia. O mercado, segundo o CEO, “não tem partido”; reage a clareza e transparência. O executivo citou 2002 como exemplo: políticas críveis levaram o Brasil ao grau de investimento, selo que hoje vizinhos sul-americanos ostentam e o Brasil busca reconquistar.
Inflação de 6% e Selic parada: o radar para 2027
O cenário base do banco para os próximos dois anos incorpora vetores de pressão inflacionária que impedem afrouxamento adicional:
- Câmbio desvalorizado repassando para preços;
- Petróleo em alta pressionando combustíveis;
- Reforma tributária com impactos de transição na inflação de serviços.
A projeção interna aponta IPCA beirando 6% em 2027. Mais de 70% das casas consultadas pelo mercado já precificam uma pausa no ciclo de cortes na próxima reunião do Copom, com a Selic estacionada em patamar restritivo durante todo o ano que vem.
Crédito: qualidade acima de volume
Juros menores permitiriam expansão mais rápida da carteira, com inadimplência em queda. Mas o Itaú lê 2027 com PIB mais fraco e desemprego em alta. A resposta estratégica é seletiva:
- Foco em média e alta renda (fortaleza histórica do banco);
- Prioridade a linhas com garantia (menor risco, menor spread);
- Corte rigoroso de despesas para defender rentabilidade (ROE de 23,6%).
“O exercício que só depende de nós fica do lado do custo”, disse Maluhy. Tecnologia e priorização substituem expansão agressiva em um cenário de atividade enfraquecida.
Balanço do 3º tri: lucro sobe, rentabilidade pressionada
O lucro líquido recorrente chegou a R$ 12,6 bilhões (+6,2% a/a), impulsionado pelo crédito com garantia. O ROE recuou 0,7 ponto percentual no trimestre, refletindo o custo de funding e a mix de carteira mais segura.
O que observar daqui para frente: a ancoragem das expectativas de inflação longa, a definição do arcabouço fiscal crível e a velocidade de deterioração do mercado de trabalho. Esses três pilares ditarão se a Selic cai em 2025 ou se o juro real estruturalmente mais alto veio para ficar.
