A disparada do dólar após o segundo turno das eleições já repercute nas cotações de soja, milho, açúcar, trigo e café, criando um cenário de pressão inflacionária que pode chegar à mesa do consumidor nas próximas semanas. O câmbio acumulou alta de 9,2% em poucos dias, batendo R$ 5,48 — maior nível desde dezembro de 2025. A dúvida central agora é: até que ponto o produtor segura esse custo e quando o repasse se torna inevitável?
O choque cambial e a conta do dia a dia
Quando a moeda americana sobe, commodities precificadas em dólar no mercado internacional ficam mais caras em reais. Isso beneficia quem exporta, mas encarece a matéria-prima para a indústria nacional de alimentos. O economista André Braz, do FGV Ibre, resume o risco: quanto mais tempo o câmbio permanecer acima do patamar pré-eleitoral, maior a probabilidade de contaminação dos preços ao consumidor final.
O mecanismo é direto. Soja e milho são a base da ração animal. Se eles sobem, o custo de produção de frango, suíno e bovino acompanha. O açúcar cristal em São Paulo emplacou a 15ª alta semanal consecutiva — a sequência mais longa desde 2020. O trigo, essencial para pães e massas, sobe puxado pelo dólar e por problemas climáticos na colheita gaúcha.
Números que não mentem: a fotografia da semana
Dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) mostram a velocidade do ajuste entre 23 de outubro (véspera do segundo turno) e o início de novembro:
- Soja (saca 60 kg, PR): R$ 146,69 → R$ 152,45 (+3,9%)
- Milho (saca 60 kg, Campinas/SP): R$ 64,27 → R$ 66,19 (+3,0%)
- Açúcar cristal (saca 50 kg, SP): R$ 125,44 → R$ 127,33 (+1,5%)
- Café robusta (saca 60 kg): R$ 936,73 → R$ 975,32 (+4,1%)
- Café arábica (saca 60 kg): R$ 1.601,95 → R$ 1.611,06 (+0,6%)
O trigo no Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, subiu 2,2% apenas em outubro. O arroz em casca também viu exportadores adiarem vendas à espera de cotações ainda maiores, travando o mercado interno.
O contraponto: plantio adiantado e diesel subsidiado
Nem tudo é alta livre. Segundo Gabriel Viana, da Safras & Mercado, o avanço rápido da semeadura da soja no Brasil — fora as chuvas excessivas no Sul — aumenta a oferta projetada e limita ganhos maiores no curto prazo. Esse “colchão” de safra nova evita disparadas imediatas.
Outro freio temporário é o subsídio ao óleo diesel, renovado por 30 dias na semana passada. O combustível pesa no custo de máquina e transporte. Mas o analista alerta: se a subvenção cair justo no pico de manejo ou colheita, o choque de custo será violento e repassado na hora.
O fator clima: El Niño entra na equação
O cenário cambial não opera isolado. O El Niño promete temperaturas acima da média nos próximos meses, o que pode reduzir a produtividade das lavouras já plantadas, especialmente no Sul. Se a quebra de safra se confirmar, a oferta menor se soma ao dólar alto — uma combinação explosiva para os preços no varejo.
No café, a dinâmica é curiosa: as cotações internacionais caíram, mas o dólar sustentou os preços internos firmes. O produtor brasileiro ganha competitividade lá fora, mas o consumidor daqui paga a conta da conversão cambial.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem se a pressão vira inflação de prateleira nas próximas semanas: a trajetória do câmbio (se estabiliza ou rompe novos tetos), a manutenção do subsídio do diesel além dos 30 dias atuais e o comportamento do clima no Sul durante o enchimento de grãos. O empresário do setor alimentício deve monitorar o spread entre o custo da matéria-prima e a capacidade de repasse — hoje limitada pelo varejo fraco. Se o dólar consolidar acima de R$ 5,50, a janela para reajustes se abre de forma irreversível.
