Economia

Reforma tributária: 26 entidades pedem adiamento da CBS para 2028

Representantes de 26 entidades tributárias assinam carta pedindo adiamento da CBS para 2028
Entidades tributárias entregam carta ao Senado solicitando prorrogação da CBS para 2028.

Mais de 20 entidades de direito tributário assinaram carta aberta pedindo o adiamento da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) para 2028. O documento, divulgado no sábado (31), expõe falhas operacionais que podem travar a adaptação das empresas. O que está em jogo vai além de prazos: é a segurança jurídica de todo o novo sistema.

O nó da alíquota e o prazo impossível

A principal preocupação é a definição da alíquota da CBS. O Senado tem até 15 de dezembro para fixar o percentual. Se o limite for usado, restam pouco mais de duas semanas para que empresas de todos os portes calculem impactos, renegociem contratos e ajustem preços antes de 1º de janeiro.

Para setores com cadeias longas ou margens apertadas, esse intervalo é impraticável. A carta alerta que a carga tributária efetiva pode variar significativamente entre atividades econômicas, exigindo análises setoriais que não cabem em 15 dias úteis.

Sistema de apuração ainda não funciona

O mecanismo de apuração assistida — que deve cruzar dados de operações para calcular CBS e IBS automaticamente — não está operacional. Sem essa ferramenta, contadores e departamentos fiscais não conseguem simular cenários nem validar processos internos.

O atraso na entrega da plataforma pública empurrou para o setor privado o ônus de testar sistemas às cegas. Empresas de ERP e emissores de nota fiscal também dependem de especificações técnicas que ainda não foram totalmente liberadas.

Adaptação interna: o custo oculto da pressa

  • Parametrização de regras de crédito e débito nos ERPs
  • Atualização de layouts de nota fiscal eletrônica
  • Treinamento de equipes fiscais e contábeis
  • Revisão de contratos de fornecimento e prestação de serviços

Cada item acima exige tempo de desenvolvimento, homologação e testes em produção. A carta argumenta que o ano de 2026, previsto como fase de testes, foi consumido por indefinições regulatórias do próprio poder público.

Risco de decisões judiciais contraditórias

Outro ponto técnico pouco debatido: o IBS começa a incidir em 2027 com alíquota de 0,1%, enquanto a CBS entra em 2027 ou 2028. Como ambos tributam bases semelhantes, mas tramitam em esferas judiciais distintas (estadual/municipal vs. federal), há risco real de julgamentos opostos sobre uma mesma operação.

Gustavo Brigagão, presidente do CESA, resume: “Não se trata de resistir às mudanças, mas de assegurar que sejam feitas com responsabilidade”. A união de 26 entidades especializadas — da OAB-DF a institutos estaduais de direito tributário — sinaliza gravidade rara no meio jurídico.

O que observar nos próximos 60 dias

O Senado define a alíquota até meados de dezembro. Simultaneamente, o governo precisa entregar o portal de apuração assistida em condições de uso real. Se um dos dois falhar, a pressão por adiamento via medida provisória ou projeto de lei crescerá no Congresso.

Para o empresário, a recomendação prática é mapear agora quais contratos têm cláusulas de repasse tributário e quais sistemas precisam de atualização crítica. Quem deixar para janeiro corre risco de não conformidade já no primeiro mês de vigência.