Economia

O plano econômico que assusta o mercado e por que ele pode quebrar o Real

Gráfico de queda do Real e fuga de capital com silhueta de André Lara Resende ao fundo
Proposta de nova política econômica com juros tabelados assusta investidores e pressiona o câmbio.

O nome de André Lara Resende voltou ao centro do debate depois que o Palácio do Planalto confirmou conversas com o economista. A simples menção de uma “Nova Política Econômica” com juros baixos tabelados e metas fixadas por anos provocou fuga imediata de capital e pressão sobre o câmbio — antes mesmo de qualquer medida concreta.

Investidores e gestores não esperam decretos. Eles antecipam cenários. E o cenário desenhado pela proposta assusta quem carrega posição em real.

O que está na mesa: conselho único, juros baixos e metas travadas

A espinha dorsal da proposta prevê um Conselho Fiscal e Monetário com poderes para definir, por quatro ou cinco anos, metas de inflação, resultado primário e taxa de juros — esta última em patamar “bem baixo”. O colegiado substituiria a autonomia operacional do Banco Central e amarraria a política monetária a um plano de longo prazo.

Na prática, seria o fim do regime de metas com câmbio flutuante que vigora desde 1999. O BC perderia a ferramenta principal de combate à inflação: a liberdade para mover a Selic.

O primeiro efeito: expectativa de desvalorização e juros longos em alta

Mesmo sem caneta na mão, a hipótese já move preços. Com a perspectiva de juros reais negativos ou próximos de zero por anos, a curva de juros futuros alonga e a taxa de câmbio pressiona. Quem precisa rolar dívida ou fechar câmbio para importação sente o impacto no bolso agora.

  • Dólar futuro: prêmio de risco embutido nas cotações de 12 a 24 meses.
  • Curva DI: inclinação mais acentuada, sinalizando desconfiança no ancoramento da inflação.
  • CDS Brasil: elevação do custo de proteção contra default soberano.

Não é teoria. Foi o que se viu nas semanas seguintes ao vazamento da notícia.

O dilema das reservas: vender dólar barato para conter a alta

Se a proposta virasse lei, o BC teria de intervender no mercado à vista para segurar o câmbio na “meta” desejada. Isso significa vender reservas a preço subsidiado — exatamente o oposto do que recomenda a gestão prudente de colchão de liquidez.

Cada dólar vendido a preço artificial é um incentivo a mais para quem quer sair do real. As reservas caem, o risco-país sobe e a profecia se autorrealimenta. Em economia aberta, não se fixa juros e câmbio ao mesmo tempo por tempo indeterminado.

O fantasma de 1999 e o limite das intervenções

O Brasil já viveu esse filme. Em 1999, a defesa de uma banda cambial consumiu reservas até o rompimento inevitável. Reservas servem para amortecer choques temporários, não para financiar déficits estruturais ou sustentar taxa de câmbio incompatível com fundamentos.

Um choque externo — alta de juros nos EUA, queda de commodities, crise geopolítica — seria o gatilho para um ataque especulativo. A história não se repete, mas rima.

Dívida pública: rolagem mais curta e cara

Com a confiança abalada, investidores exigem prêmios maiores e prazos menores. O Tesouro teria de emitir mais em curto prazo (LTN, LFT) e menos em longo (NTN-B, NTN-F). Isso eleva o risco de refinanciamento e o custo médio da dívida — justamente o oposto do que a proposta promete resolver.

O resultado provável: menos investimento produtivo, emprego mais fraco e salário real comprimido pela inflação que o regime não consegue conter.

O que vem depois do colapso: controles de preços e de capitais

Quando a âncora se solta, governos tentam segurar o navio com amarras heterodoxas. Congelamento de preços, tabelamento de câmbio, restrição a remessas. A América Latina tem um catálogo vasto de fracassos nessa linha — do Plano Cruzado ao corralito argentino.

Os defensores da proposta não detalham como sairiam da espiral. O silêncio sobre o “plano B” é, por si só, um dado de risco.

Mudança de regime exige lei — e tempo

Para tirar o poder de definir juros do BC e entregar a um conselho político, seria preciso revogar a Lei Complementar 179/2021 (autonomia do Banco Central) e alterar a relação Tesouro-BC. Isso tramita no Congresso, exige quórum qualificado e debate público. Não acontece por decreto.

Enquanto a tramitação arrasta, a incerteza cobra seu prêmio diário nos ativos brasileiros.

O que observar nas próximas semanas

Três sinais dirão se a ideia avança ou recua: (1) manifestações formais do Ministério da Fazenda sobre metas fiscais críveis; (2) composição da diretoria do BC nas próximas vagas; (3) reação da curva de juros e do CDS a cada ruído político. Quem tem exposição a Brasil — seja em renda fixa, câmbio ou ações — deve precificar a probabilidade de regime novo. O mercado já começou a fazer isso.