Um menino que enjoava no convés do barco do pai comanda hoje uma frota de quatro embarcações e emprega dez pessoas — tudo sem pescar um único peixe. A história de Paulo Salomão resume o que aconteceu no Arquipélago de Abrolhos: a baleia-viva vale mais que a baleia-morta.
Nos anos 1980, a criação do Parque Marinho fechou a torneira da pesca. Três décadas depois, o turismo de observação injetou uma segunda alta temporada no inverno, duplicou a renda de operadores locais e ajudou a população de jubartes a saltar de menos de 2 mil para cerca de 35 mil indivíduos.
O efeito nos pequenos negócios
Agosto, mês de pico das baleias, já supera o faturamento dos três meses de verão combinados. Barqueiros, pousadas, restaurantes e comércio de Caravelas e cidades vizinhas passaram a operar o ano inteiro.
“Antes a gente só contava com o verão. Com o aumento da população de baleias, a gente passou a contar com fluxo de pessoas no inverno também”, explica Salomão, dono do barco Teimoso — nome que ele deu à primeira embarcação, comprada quando a pesca já era proibida no parque.
- População de jubartes no Brasil (2022): ~35 mil
- Estimativa início dos anos 1990: < 2 mil
- Concentração em Abrolhos: 90% dos animais que chegam ao país
- Distância percorrida da Antártica: ~4.000 km
Mas o impacto mais relevante aparece na conta ambiental.
Por que a baleia-viva virou ativo financeiro
Um estudo do Fundo Monetário Internacional com a Universidade de Duke, em parceria com o Instituto Baleia Jubarte e a Great Whale Conservancy, estimou que as baleias presentes no Brasil geram mais de US$ 82 bilhões em serviços ecossistêmicos: fertilização dos oceanos, captura de carbono e turismo.
O mecanismo é simples: as jubartes se alimentam na Antártica (rica em ferro) e defecam nas águas tropicais de reprodução. Esse aporte de nutrientes impulsiona a cadeia alimentar — incluindo peixes de interesse comercial.
“Quando elas se alimentam na Antártica e defecam aqui, estão jogando nutrientes na água, o que aumenta a produtividade de várias espécies”, resume Milton Marcondes, diretor de pesquisa do Instituto.
As regras que equilibram lucro e preservação
Uma portaria de agosto de 2026 endureceu o protocolo de aproximação:
- Distância mínima de 100 metros
- Tempo máximo de permanência: 60 minutos (30 minutos se houver filhote)
- Máximo de duas embarcações simultâneas por grupo de baleias
- Proibido toque, perseguição, cerco ou qualquer manobra que altere o deslocamento natural
A fiscalização cabe ao poder público, mas o Instituto Baleia Jubarte firma acordos de cooperação com municípios e emite o selo “Amigo da Baleia” para operadores que passam pela capacitação anual.
O que observar daqui pra frente
A temporada de 2026 terminou com menos filhotes registrados — sinal de alerta que pesquisadores já monitoram. Mudanças climáticas, rotas de navegação e ruído subaquático são variáveis que podem reverter o ganho populacional de três décadas.
Para o empresário do setor, a lição é clara: o ativo não é o barco, nem o combustível, nem mesmo o guia. O ativo é a baleia que retorna todo inverno. Manter ela viva — e tranquila — é a única estratégia de longo prazo que paga dividendo.
