Internacional

Sérvia: como um acidente em estação derrubou 14 anos de poder

Estudantes sérvios protestam diante de estação de trem com marquise desabada, simbolizando mudança política
Estudantes transformam luto por tragédia ferroviária em movimento que derruba 14 anos de poder na Sérvia

Uma lista sem líder único, composta por 250 profissionais de áreas técnicas, conquistou 53% dos votos nas eleições parlamentares sérvias de 2026, encerrando mais de uma década de domínio do Partido Progressista Sérvio (SNS). O resultado não nasceu de uma articulação partidária tradicional, mas de um movimento estudantil que transformou luto em engenharia política. O estopim foi o desabamento de uma marquise em uma estação de trem, mas a consequência redefiniu o tabuleiro geopolítico dos Bálcãs.

A tragédia que virou símbolo de um sistema

Em 1º de novembro de 2024, às 11h52, a cobertura da entrada da estação ferroviária de Novi Sad cedeu. Dezesseis pessoas morreram. A obra de modernização do terminal, bandeira do governo para atrair trens de alta velocidade, era supervisionada diretamente pela cúpula do poder.

A associação imediata entre a falha estrutural e a corrupção sistêmica incendiou a população. O que começou como vigílias de luto nas universidades migrou para as ruas, agregando trabalhadores rurais, artistas, magistrados e setores da classe média cansados do autoritarismo velado de Aleksandar Vucic.

Da revolta à elaboração de política pública

O diferencial do movimento foi a recusa em eleger porta-vozes ou formar um partido convencional. Durante dois anos, os estudantes promoveram maratonas de debates — algumas com seis horas de duração — sobre mineração de lítio, controle de estatais, saúde, educação e o poder das oligarquias locais.

Conforme relatou o pesquisador Aleksandar Matkovic, o conhecimento técnico precedeu a organização política. “A cultura da autogestão coletiva substituiu a figura do salvador da pátria”, resume. Essa maturidade permitiu que a “Lista dos Estudantes” se apresentasse ao eleitorado não como uma promessa, mas como um diagnóstico pronto para execução.

O perfil inusitado do novo Parlamento

A composição da bancada vitoriosa quebra paradigmas da região:

  • 250 nomes sem nenhum estudante na lista final;
  • 53% possuem doutorado (psicólogos, cardiologistas, professores de química);
  • 44% são mulheres, índice raro na política balcânica;
  • Plataforma única: fim de indicações políticas em estatais, liberdade editorial na emissora pública e rompimento com redes de crime organizado.

O eleitorado não escolheu um chefe, escolheu um colegiado técnico. A festa nas ruas de Belgrado e Novi Sad celebrou a quebra de um ciclo de 14 anos — o mesmo período em que Vucic alternou entre premiê e presidente, concentrando contratos, verbas públicas e narrativas midiáticas.

O legado Vucic e o vácuo de poder

Vucic, aliado histórico de Viktor Orbán na Hungria, construiu um modelo de “partido dominante” que garantia crescimento via privatizações e investimentos estrangeiros — como os da mineradora Rio Tinto no lítio sérvio. Seu governo equilibrava acenos à União Europeia com laços profundos com Rússia e China.

A renúncia do primeiro-ministro em janeiro de 2025 e as manifestações recordes de março não frearam a erosão. Ao classificar os estudantes como ameaça à existência da Sérvia, o presidente subestimou a capacidade de articulação de uma geração que aprendeu a legislar antes de votar.

O que observar nos próximos meses

A governabilidade dependerá da coesão de um bloco heterogêneo sem whip partidário. Os primeiros testes virão na nomeação de gestores para empresas estatais e na reforma da radiodifusão pública — áreas onde o clientelismo era moeda corrente.

No front externo, a UE observará se a nova maioria mantém o ritmo de adesão ou se o discurso anticorrupção esbarra em interesses de Pequim e Moscou. Para investidores, o sinal verde está na profissionalização do Estado; o risco reside na inexperiência legislativa de um parlamento que nunca negociou uma lei ordinária. A Sérvia acaba de provar que a técnica pode vencer a máquina — resta saber se consegue governar sem ela.