Os reservatórios do Rio Grande do Norte atingiram 44,27% da capacidade total no início de novembro, volume que equivale a 2,289 bilhões de metros cúbicos. A alta de dois pontos percentuais frente a 2025 mascara uma realidade assimétrica: quatro barragens estão completamente secas enquanto as maiores do estado operam abaixo de 36%.
Para quem depende de segurança hídrica — do agronegócio à indústria —, o dado isolado de “recuperação” pode ser uma armadilha estratégica. A distribuição da água disponível dita muito mais do que a média estadual sugere.
Onde a água está (e onde faz falta)
A barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves, maior do estado e coração do abastecimento do Vale do Açu, acumula apenas 35,65% da capacidade. São 845,96 milhões de metros cúbicos disponíveis de um total de 2,37 bilhões.
Em contrapartida, Oiticica (Jucurutu) e Santa Cruz do Apodi oferecem fôlego relativo, com 67,23% e 66,32% respectivamente. O reservatório Umari, em Upanema, completa o grupo acima da meia capacidade com 55,05%.
Essa concentração cria gargalos logísticos e produtivos. A água existe, mas não necessariamente onde a demanda econômica é mais intensa.
O mapa do risco zero: quatro reservatórios secos
O levantamento da ANA aponta volume nulo em estruturas estratégicas para o Seridó e o Curimataú. A lista de reservatórios secos inclui:
- Itans (Caicó);
- Passagem das Traíras (São José do Seridó);
- Dourado (Currais Novos);
- Mundo Novo (Caicó).
A seca nessas áreas não é apenas um dado climático; representa a interrupção direta de atividades pecuárias, aquícolas e de abastecimento humano em municípios que não contam com redundância hídrica.
Níveis críticos: a zona de perigo abaixo de 20%
Além dos quatro zerados, outros cinco reservatórios operam em situação de estresse severo, com volumes inferiores a 20%:
- Esguicho (Ouro Branco): 3,76%;
- Boqueirão de Parelhas: 6,52%;
- Sabugi (São João do Sabugi): 6,84%;
- Tabatinga (Macaíba): 13,07%;
- Pataxó (Ipanguaçu): 17,98%.
Nesses patamares, a captação torna-se tecnicamente difícil e economicamente inviável para muitos usos, elevando o custo operacional de quem insiste na região.
Comparativo temporal: a tendência que preocupa
Olhar apenas para a variação anual (+2% vs 2025) esconde a trajetória de médio prazo. Em novembro de 2023, o estado tinha 54,09%. Em 2024, o patamar era de 67,17%.
Ou seja: apesar da melhora marginal no último ano, o sistema perdeu mais de 20 pontos percentuais em dois ciclos. A resiliência hídrica do RN foi corroída e a margem de segurança para um novo ano seco é praticamente inexistente nas bacias mais vulneráveis.
O que observar daqui para frente
O cenário exige monitoramento ativo de três variáveis para tomada de decisão:
- Previsão da quadra chuvosa 2025: modelos climáticos atuais indicam neutralidade climática, sem sinal claro de El Niño ou La Niña forte — o que historicamente traz chuvas irregulares no semiárido.
- Gestão da Armando Ribeiro: regras de operação e outorgas de uso da maior barragem definirão a disponibilidade para irrigação no Vale do Açu no primeiro semestre.
- Investimentos em interligação: andamento das obras de transposição e adutoras de engate rápido que podem alterar a geografia da oferta no Seridó.
Quem trata água como variável de custo fixo corre risco. Quem a trata como variável estratégica, monitorando reservatórios específicos e não apenas a média estadual, ganha tempo para adaptar contratos, safras e logística.
