O diretor Karim Aïnouz definiu a recepção de Motel Destino como um “tapa na cara”: o público demonstrou resistência explícita a cenas de sexo no cinema. A revelação aconteceu durante entrevista ao programa Desculpa Alguma Coisa, do Canal UOL, e expõe um incômodo latente com a intimidade nas telas.
Segundo o cineasta, a expectativa era de que a ousadia atraísse, mas a reação sinalizou o contrário. As pessoas parecem querer erotismo em outros espaços, não na sala de projeção. Mas o que esse afastamento revela sobre o consumo audiovisual atual?
O choque térmico: do inverno de 1500 ao calor do motel
A origem de Motel Destino nasce de uma necessidade física e estética de contraponto. Aïnouz vinha de um projeto de época rodado no inverno rigoroso, ambientado no ano de 1500. O corpo coberto, a linguagem contida e a atmosfera gelada criaram uma vontade urgente de oposto.
“Preciso de um filme que as pessoas tiram a roupa, que elas têm calor”, resumiu o diretor. A busca por referências migrou para o thriller erótico e para a pornochanchada brasileira, gêneros que historicamente dialogam com o desejo sem pudor. O resultado pretendia ser visceral, suado e exposto.
A estratégia da desestabilização deliberada
Não foi acidente. Após o sucesso unânime de A Vida Invisível, Aïnouz declarou que busca ativamente projetos que dividam a plateia. O conforto da crítica e do público tornou-se uma armadilha a ser evitada.
- Objetivo: tirar o próprio cinema de uma zona de segurança.
- Método: abraçar a polêmica e o desconforto como ferramentas narrativas.
- Risco: alienar parte da base conquistada com obras anteriores.
Para o diretor, a divisão de opiniões é um termômetro de vitalidade. Um filme que agrada a todos, na visão dele, pode ter deixado de arriscar.
O incômodo com o desejo real
A análise de Aïnouz vai além da bilheteria. Ele sugere que a resistência a Motel Destino espelha uma dificuldade contemporânea de lidar com a intimidade exposta de forma crua. Não se trata apenas de nudez, mas da encenação do desejo sem filtros românticos ou moralizantes.
Enquanto plataformas de streaming e redes sociais normalizam corpos performáticos, a sala de cinema — espaço coletivo e imersivo — parece provocar uma vergonha compartilhada. O espectador se vê nu diante do nu alheio, sem a proteção da tela do celular.
Onde assistir e o que esperar da conversa
A entrevista completa integra o catálogo do Desculpa Alguma Coisa, comandado por Tati Bernardi. O programa propõe justamente esse espaço de fala sem amarras, onde convidados revelam bastidores e opiniões que evitariam em coletivas tradicionais.
Novos episódios estreiam às quartas-feiras no YouTube do Universa e no Canal UOL. A emissora também está disponível em operadoras como Claro (549), Vivo TV (613), Sky (88), Oi TV (140), TVRO Embratel (546), Zapping (64) e Samsung TV Plus (2074), além do UOL Play.
O que observar daqui para frente
O caso Motel Destino levanta uma questão central para a indústria: o cinema de autor consegue sustentar a ousadia erótica sem o respaldo de um público que, paradoxalmente, consome conteúdo adulto em volumes recordes em outras janelas? A resposta pode ditar os rumos da produção nacional nos próximos anos — e definir se diretores como Aïnouz continuarão a “levar tapas” ou se a plateia aprenderá a ficar confortável com o desconforto.
