Um estudo inédito revela que o Brasil deixaria de produzir 121 milhões de toneladas de soja por ano se abrisse mão da proteção fitossanitária — um buraco de R$ 223,5 bilhões na economia. O número assusta, mas esconde uma tensão maior: o país que mais usa agrotóxico por hectare no mundo.
Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a Croplife Brasil, simularam três cenários para a oleaginosa. O resultado expõe uma equação brutal: produtividade versus externalidades.
O abismo entre proteger e não proteger
Os números não deixam margem para dúvida. Com controle ótimo (80% de proteção), a média salta para 72 sacas por hectare. Controle parcial (40%) entrega 52 sacas. Sem nenhum manejo? Apenas 32 sacas — queda de 55%.
Para compensar essa perda, seria preciso plantar mais 33,5 milhões de hectares. Para dimensionar: equivale a quase um estado de Goiás inteiro de nova área aberta.
O choque no bolso do consumidor
A conta chega na gôndola. A redução de oferta dispararia o preço da soja em até 49%. O IPCA sentiria 0,26 ponto percentual de pressão adicional. Óleo, leite, ovos, carnes de frango e suíno — todos dependem do farelo de soja na ração animal.
- Receita de exportação com controle ótimo: US$ 44,2 bilhões
- Sem controle: US$ 26,6 bilhões
- Diferença por safra: US$ 17,6 bilhões
“A redução da produtividade lá no produtor acaba tendo impacto significativo no preço final”, resume a pesquisadora Ana Carolyne Carvalho, da UFV.
O paradoxo do maior consumidor mundial
Dados do Ipea mostram que, de 2003 a 2023, o uso de defensivos químicos no Brasil multiplicou-se por 4,4 — de 180 mil para 800 mil toneladas anuais. O país aplica 10,9 kg por hectare. Os Estados Unidos usam 2,85 kg. A China, 1,9 kg.
Soja, milho e cana-de-açúcar respondem juntos por 76% desse volume.
Riscos documentados à saúde e ao meio ambiente
O pesquisador Robson Barizon, da Embrapa, alerta: substâncias empregadas no manejo fitossanitário podem causar efeitos agudos e crônicos à saúde humana, contaminar solos e recursos hídricos, e afetar polinizadores e organismos aquáticos.
Entre 2015 e 2025, o Ministério da Saúde registrou 73.391 casos de intoxicação por agrotóxicos. Só no ano passado, foram 9.729 notificações.
OGMs: a faca de dois gumes
Organismos geneticamente modificados podem reduzir ou aumentar o uso de químicos — depende da tecnologia. Plantas resistentes a pragas dispensam inseticidas. Já as tolerantes a herbicidas permitem doses maiores para eliminar plantas daninhas, o que acelera a seleção de ervas resistentes.
“Não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde pelo consumo de OGMs aprovados”, pondera Barizon. “Os impactos ambientais estão ligados às práticas agrícolas associadas.”
A aceleração regulatória recente
Desde a nova Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o ritmo de registros disparou. Em 2024, foram 663 novos produtos liberados — contra 555 em 2023. De 2005 a 2019, 3.151 defensivos foram registrados; apenas 20% classificados como baixa toxicidade.
A Croplife, que reúne empresas do setor, defende o rigor do processo. “Há um investimento muito grande para garantir segurança quando aplicado dentro das recomendações”, afirma o coordenador de Sustentabilidade Pedro Duarte.
O caminho do manejo integrado
O estudo aponta quatro pilares de controle que podem ser combinados: biotecnologia, melhoramento genético, bioinsumos e defensivos químicos. A integração entre eles — o manejo integrado — surge como a rota para manter a produtividade sem depender exclusivamente da química.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o próximo ciclo: a velocidade de adoção de bioinsumos em larga escala, a pressão regulatória europeia sobre resíduos em importações brasileiras e a evolução da resistência de pragas e plantas daninhas aos atuais princípios ativos. Quem antecipar essa transição — seja no campo, na indústria ou no capital — captura a margem. Quem esperar, paga a conta.
