Justiça

O xadrez oculto do Centrão: por que 2027 não é o que parece

Gilberto Kassab analisa tabuleiro de xadrez político com peças representando partidos do Centrão e Palácio do Planalto ao fundo
Kassab prevê vitória de Lula em 2022 e redefine estratégia do PSD para 2027

Em 18 de outubro de 2022, enquanto a direita comemorava a vitória no primeiro turno, Gilberto Kassab olhou para as curvas de intenção de voto e sentenciou: “Vai ganhar o Lula”. O PSD, sob seu comando, recusou-se a embarcar na canoa de Flávio Bolsonaro e manteve a neutralidade. Essa frieza analítica redesenhou o tabuleiro de Brasília para os próximos quatro anos.

O resultado das urnas para o Legislativo assustou o mercado e o Palácio do Planalto. O PL elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado, criando a sensação imediata de um Congresso dominado pelo bolsonarismo até 2027. A leitura superficial ignorava, contudo, a mecânica real do poder parlamentar brasileiro.

A leitura fria que evitou o naufrágio

Kassab não apostou em torcida; leu dados. A curva ascendente de Lula nas pesquisas, mesmo no empate técnico, sinalizava a virada. Ao manter o PSD fora do palanque único da direita, o partido preservou pontes com o futuro governo. Foi uma aposta na governabilidade, não na ideologia.

Essa decisão evitou que a sigla ficasse refém de uma oposição radicalizada. No dia seguinte à posse, o PSD tinha ministro, presidência de comissões estratégicas e, principalmente, liberdade de voto. O custo político da neutralidade de outubro pagou dividendos imediatos em janeiro.

O mito do Congresso irrelevante

O medo de um Legislativo “carimbado” pela extrema direita durou semanas. A metáfora das abóboras na carroça — citada na análise do cenário pós-eleição — resume o que aconteceu: o tranco da derrota presidencial acomodou as peças. Parlamentares eleitos na onda bolsonarista perceberam que o isolamento radical inviabiliza emendas, relatorias e cargos.

O Centrão, dado como encolhido, ressurgiu como fiel da balança. Não por ideologia, mas pela matemática simples: nem governo nem oposição têm maioria absoluta. Quem controla o centro, controla a pauta.

Impacto direto: agenda econômica e risco país

Para o empresário e o investidor, a tradução prática é uma só: previsibilidade. O reequilíbrio de forças garante que pautas sensíveis — reforma tributária, arcabouço fiscal, marco regulatório — dependam de negociação, não de imposição ou obstrução total.

  • Reforma Tributária: Aprovada com ampla margem porque o centro negociou fundos de desenvolvimento regional.
  • Arcabouço Fiscal: Passou com alterações que blindaram emendas parlamentares, moeda de troca clássica do Centrão.
  • Indicações de estatais e agências: Distribuídas via negociação partidária, reduzindo risco de aparelhamento unilateral.

O “desequilíbrio” entre o voto para presidente (Lula) e o voto para deputado (PL majoritário) funcionou como um freio de mão institucional. Impede tanto o voluntarismo executivo quanto o golpismo legislativo.

A armadilha da oposição e a lição do jogo parlamentar

A oposição tem capital político real: 99 deputados do PL, governadores de grandes estados, capilaridade municipal. O erro estratégico seria transformar esse ativo em pura obstrução. O Parlamento não opera na lógica da eliminação do adversário, própria das urnas, mas na da construção de consensos mínimos.

Se a direita organizar-se como alternativa programática — apresentando propostas para saúde, segurança, economia —, vira protagonista de 2026. Se insistir apenas na pauta de costumes e no “quanto pior, melhor”, condena-se à irrelevância legislativa, mantendo o Centrão no comando da agenda.

O que observar daqui para frente

O termômetro real não está nas redes sociais, mas na distribuição das relatorias de projetos econômicos e na composição da CMO (Comissão Mista de Orçamento). Acompanhe como o governo lida com a base: se amplia a negociação programa a programa ou tenta fidelização por cargos. O segundo modelo costuma falhar no médio prazo. O primeiro, embora mais lento, é o único que sustenta aprovações estruturais em um Congresso fragmentado. O xadrez continua; as peças é que mudaram de cor.