A Turquia vai levar à COP31, em Antália, uma meta ambiciosa: fazer a eletricidade responder por 35% do consumo energético global até 2035. Hoje, esse índice mal passa de 23%. O detalhe crítico, no entanto, está no que o texto não garante: a origem dessa energia.
A proposta nasce na “Agenda de Ação”, trilha voluntária para o setor privado coordenada pela presidência turca, enquanto a Austrália comanda a diplomacia oficial. Para empresários e investidores, o sinal é claro: a eletrificação virou moeda forte, mas a regra do jogo continua aberta para fósseis e nuclear.
O retrato atual: fósseis ainda ditam o ritmo
Mais da metade da eletricidade gerada no planeta em 2025 veio de carvão e gás. O cenário expõe o risco de uma meta “cega” de eletrificação: trocar óleo diesel por energia de usina a carvão não resolve a emergência climática.
- Carvão: 33,6%
- Gás natural: 21,3%
- Hidráulica: 14%
- Nuclear: 8,9%
- Eólica: 8,4%
- Solar: 8,3%
O paradoxo turco: anfitriã dependente
A Turquia importa 95% do gás e 65% do carvão que queima. Mesmo com renováveis atingindo 56% da geração doméstica, as emissões do setor energético dobraram desde 2000. A meta oficial é chegar a 120 GW de capacidade limpa em 2035 — hoje são 43 GW —, mas não existe plano para fechar usinas a carvão.
Taha Arvas, que comanda a operadora do mercado elétrico turco (Epias), resume a tensão: “A população não se importa com metas de carbono, ela quer eletricidade”. A segurança energética, segundo ele, ainda exige fósseis como lastro para a intermitência do sol e do vento.
Onde o perigo mora para o investidor
Especialistas ouvidos na cúpula alertam: sem uma cláusula explícita de descarbonização, a meta de 35% vira um cheque em branco para expansão de gás e nuclear. Ümit Şahin, do Centro de Políticas de Istambul, diz que o compromisso deve servir ao “abandono gradual, justo e ordenado dos combustíveis fósseis”.
Alkim Bağ, do centro Shura, aponta que a própria Turquia travou na eletrificação do consumo final: o índice patina em 22% há anos. “Propusemos a eletrificação para reduzir fósseis; essa ligação deveria estar mais explícita”, afirma.
O espelho brasileiro e a lição da competitividade
No Brasil, a eletrificação está em 20,9%, mas 86,6% da matriz elétrica já é renovável. Para Rosana Santos, do Instituto E+, a conta só fecha se houver ganho real de competitividade industrial. “Não precisamos fazer por fazer”, diz. A tensão geopolítica — guerras na Ucrânia e no Oriente Médio — empurrou a Turquia para uma pauta onde há convergência possível, mas o risco de “greenwashing” industrial é alto.
O que observar daqui para frente
A sociedade civil promete pressionar por renováveis obrigatórias na meta de Antália. Paralelamente, a presidência brasileira da COP30 deve divulgar nas próximas semanas o roteiro de faseamento de fósseis que caiu do acordo final em Belém. A dupla Turquia-Austrália tem a responsabilidade de ressuscitar esse debate. Para o mercado, a leitura é direta: eletrificação sem descarbonização travada em contrato é apenas expansão de demanda por energia — de qualquer fonte.
