Economia

Rali virou poeira: o que outubro fez com seu dinheiro…

Gráfico do Ibovespa em queda livre com percentuais negativos e investidor preocupado ao fundo
Ibovespa devolve ganhos de 2026 em outubro: de 28% para apenas 5% no ano, abaixo do CDI.

O Ibovespa devolveu quase todo o ganho do ano em apenas 30 dias, deixando a renda fixa no topo da preferência do investidor brasileiro. O índice, que beirava 28% de alta após o primeiro turno, fechou outubro com modesto 5% no acumulado de 2026 — menos da metade do CDI no período. A virada foi brusca e a conta, salgada.

O mês em três atos: da euforia ao tombo

Levantamento da Elos Ayta desenha outubro como uma peça em três movimentos. Na virada do primeiro turno, entre 2 e 5 de outubro, a Bolsa saltou 7,7% e o dólar caiu para R$ 4,99. O mercado precificava um cenário específico para o segundo turno.

A assimetria se confirmou nos dias seguintes. Da reeleição até 26 de outubro, o Ibovespa desabou 14,7%, as small caps afundaram 20,7% e o dólar Ptax disparou 10,2%, batendo R$ 5,50. A intensidade da queda foi o dobro da alta anterior.

Após o susto inicial, houve um respiro: o índice recuperou parte das perdas e a moeda devolveu ganhos, fechando a quinta-feira (29) em R$ 5,37. Mas o estrago no patrimônio já estava feito.

Small caps e dividendos: as maiores vítimas

As ações de menor capitalização lideraram as perdas do mês com queda de 16,67%, acumulando recuo de 18% no ano — o pior desempenho do levantamento. O IDIV, índice de bons pagadores de dividendos, não escapou: caiu 9,14% em outubro.

Segundo Luise Coutinho, da HCI Advisors, e Rai Chicoli, da Monte Bravo, o ciclo doméstico paga o preço. Empresas endividadas, dependentes de consumo e crédito — varejo e construtoras na mira — sofrem mais com juros altos e incerteza fiscal.

Fundos imobiliários (IFIX -3,27%) e multimercados (IHFA -1,43%) também fecharam no vermelho, este último rendendo abaixo do CDI no ano.

Renda fixa: o porto seguro que não falhou

Enquanto a variável sangrava, o CDI entregou 1,02% no mês e 11,63% no ano, sem sobressaltos. A poupança rendeu 0,67% no período. O IMA Geral, termômetro dos títulos públicos, subiu 0,14% em outubro e acumula 10,27% em 2026.

Para quem tem dinheiro novo, a recomendação divide-se entre cautela e oportunidade:

  • Tesouro Selic: melhor opção para liquidez e baixa tolerância a risco, na visão de Bruno Corano (Corano Capital).
  • Títulos IPCA+ (longo prazo): taxas reais elevadas abrem janela para quem aguenta marcação a mercado, diz Glauber Sá (Akros). “O erro caro não é comprar no dia errado, é abandonar a estratégia no meio do caminho.”

Dólar e BDRs: o seguro que funcionou

Quem manteve exposição internacional dormiu mais tranquilo. O dólar Ptax subiu 3,73% no mês e o índice de BDRs avançou 1,48%, mesmo com bolsas americanas mistas (S&P 500 +0,90%; Nasdaq -2,52%). No ano, BDRs rendem 11,18%, colados no CDI.

Especialistas divergem na fatia ideal, mas convergem no princípio: não dolarize por pânico.

  • Bruno Shahini (Nomad): 20% a 40% no exterior para perfil moderado, horizonte de 10 a 20 anos.
  • Luis Ferreira (EFG Bank): 25% a 50% para certas famílias. Alerta: vender ações brasileiras na baixa para comprar dólar exige plano de carteira, não reação ao susto.

O placar final de 2026 até aqui

Com o tombo de outubro, a hierarquia dos ativos mais comuns na carteira nacional ficou assim (dados até 29/10):

  • CDI: +1,02% (mês) | +11,63% (ano)
  • BDRs (BDRX): +1,48% | +11,18%
  • Títulos Públicos (IMA Geral): +0,14% | +10,27%
  • Poupança: +0,67% | +6,86%
  • Multimercados (IHFA): -1,43% | +5,50%
  • Ibovespa: -9,21% | +5,00%
  • Dividendos (IDIV): -9,14% | +2,85%
  • Dólar Ptax: +3,73% | -2,33%
  • Fundos Imobiliários (IFIX): -3,27% | -3,79%
  • Bitcoin (BRL): -1,23% | -11,37%
  • Small Caps (SMLL): -16,67% | -18,02%

O que observar daqui para frente

O xadrez agora gira em torno do fiscal. Para Chicoli, se o governo endereçar a trajetória da dívida, a Bolsa pode parecer barata adiante. Se o gasto seguir crescendo, “mesmo com essa queda, a Bolsa pode estar eventualmente cara”.

O investidor deve monitorar: a sinalização do novo arcabouço fiscal, a curva de juros reais nos títulos longos e a condução da política monetária pelo Banco Central. A diversificação — que amorteceu o choque de outubro — segue como única estratégia que não depende de acertar o próximo movimento do mercado.