Uma perícia judicial concluiu que a sequência de partidas impostas ao zagueiro Ruan Tressoldi pelo São Paulo acelerou a ruptura do menisco lateral do joelho direito. O atleta, hoje no Atlético-MG, cobra R$ 14 milhões em atrasados e indenizações por suposta negligência médica entre janeiro e junho de 2025. O laudo pode mudar o rumo de uma disputa que chega à sentença na próxima semana.
O documento, assinado pelo perito Adalberto Soares, aponta “nexo causal concomitante moderado” entre a carga de jogos e o agravamento da lesão. Em termos práticos: o clube não criou o problema, mas suas decisões o tornaram irreversível. A defesa do São Paulo já pediu a anulação do laudo.
A sequência que mudou tudo
O foco central da perícia recai sobre um intervalo de 12 dias, entre 29 de abril e 11 de maio de 2025. Nesse período, Tressoldi disputou quatro partidas completas, sem rodízio nem redução de minutos, segundo dados de GPS do próprio clube.
Para o perito, essa exigência “atuou decisivamente na aceleração e agravamento lesivo” sobre um tecido já fragilizado por degeneração prévia. O laudo classifica o quadro como “agravamento da condição preexistente” — não uma lesão nova, mas uma evolução forçada.
- 29/04 a 11/05/2025: 4 jogos oficiais consecutivos
- Tempo em campo: 90 minutos em todos
- Fonte dos dados: GPS do São Paulo
- Conclusão do perito: falta de gestão de carga
O que o clube deixou de fazer
Além da maratona de jogos, o laudo aponta a ausência de dois documentos obrigatórios pelas normas de segurança do trabalho: a Avaliação Ergonômica Preliminar e o Programa de Gerenciamento de Riscos. O perito trata essa falha como contexto, não como causa isolada, mas ela reforça o argumento de ambiente propício a lesões.
Tressoldi alega ainda que o São Paulo deixou de contratar seguro obrigatório, o colocou em campo com dores e exames alterados, submeteu-o a tratamento classificado como experimental pelo Conselho Federal de Medicina e adiou cirurgia necessária — tudo enquanto atrasava direitos de imagem.
O contra-argumento do São Paulo
O clube contesta o laudo em duas frentes. A primeira, processual: o perito é fisioterapeuta, não médico, e o São Paulo pede nova perícia com profissional da medicina. A segunda, técnica: argumenta que o atleta suportou cargas maiores em janeiro (cerca de 66 km em 10 dias) sem lesão, e que reduziu a intensidade dos treinos entre as partidas de abril e maio.
Para a defesa do clube, a ruptura é a evolução natural de uma degeneração já existente, independente da gestão de carga. O perito rebate: janeiro era pré-temporada, com exigências fisiológicas distintas de partidas oficiais seguidas.
Sem sequelas — mas com conta alta
Curiosamente, o mesmo laudo que aponta responsabilidade do clube atesta que a capacidade de trabalho do zagueiro está “totalmente preservada”. Não há sequela funcional nem dano estético. Tressoldi operou em 8 de julho de 2025, voltou aos gramados em 8 de outubro pelo Atlético-MG e virou peça importante do time.
Essa conclusão gerou questionamentos dos dois lados. A defesa do jogador discorda da ausência de sequelas e dano estético. O São Paulo usa a plena recuperação para minimizar o pedido de indenização.
O que observar daqui para frente
A sentença de primeira instância deve sair nos próximos dias. Se mantido, o laudo abre precedente relevante: clubes podem ser responsabilizados por agravamento de lesões preexistentes quando a gestão de carga ignorar protocolos de segurança do trabalho — mesmo sem criar a lesão original.
Para gestores esportivos, o recado é claro. A ausência de documentos básicos de ergonomia e gerenciamento de risco, somada à exposição de atletas em sequências densas sem rotação, deixa de ser apenas má prática e vira passivo judicial. O caso Tressoldi será citado nas próximas negociações de contratos e seguros.
Resta saber se o juiz acolherá o pedido de nova perícia médica ou dará peso ao laudo atual. De qualquer forma, a conta — R$ 14 milhões — já está na mesa.
