Um relatório técnico expõe um passivo de R$ 2,9 bilhões com a União enquanto a Polícia Federal deflagra nova fase de operação contra lavagem de dinheiro. A discrepância entre o débito tributário e o padrão de vida da família levanta suspeitas sobre a origem dos recursos.
O documento, elaborado pelo Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade (FNCP), consolida dados do segundo trimestre de 2025. Após eliminar duplicidades decorrentes de responsabilidade solidária, o valor exato atinge R$ 2.929.182.175,11 em tributos federais, multas e juros.
O tamanho do passivo e a responsabilidade compartilhada
A dívida não pertence a um único CNPJ. Ela se espalha por um emaranhado de empresas do setor de cigarros — como Clean, Gudang, New Ficet, Win e M1 — e atinge pessoas físicas da família. Entre os nomes listados estão a esposa Simone Poncio, a filha e deputada estadual Sarah Poncio e o filho, cantor Saulo Poncio, ex-integrante da banda UM44K.
O levantamento mostra que os débitos existem desde o início dos anos 2000, com forte aceleração em 2011. Os tributos envolvidos cobrem toda a cadeia federal: IPI, PIS, Cofins, CSLL, IRPJ e FGTS. Como a responsabilidade é solidária, a soma individual de cada devedor não representa o total real; o fórum cruzou os dados para chegar ao valor único de quase R$ 3 bilhões.
Operação Unha e Carne: o celular que abriu novas frentes
Enquanto os números contábeis assustam, a Polícia Federal age no campo criminal. Nesta quinta-feira (29), a 9ª fase da Operação Unha e Carne cumpriu quatro mandados de busca e apreensão na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. A investigação apura lavagem de dinheiro e ocultação de bens de alto valor.
Segundo a PF, a análise do celular de Márcio Poncio — preso na 5ª fase, em julho, e atualmente em domiciliar por decisão do STF — revelou endereços ocultos, estruturas empresariais inéditas e ativos usados para movimentar recursos do grupo. Um dos alvos da fase atual é Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho do bicheiro Adilsinho, apontado como operador-chave do esquema.
Imóveis de luxo versus dívida ativa: o paradoxo patrimonial
O relatório do FNCP cruzou 84 pessoas físicas e jurídicas em cartórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Aparecida de Goiânia. Foram analisados 292 registros, incluindo matrículas imobiliárias. O resultado expõe um contraste direto:
- Patrimônio imobiliário mapeado: R$ 49,2 milhões em aquisições.
- Imóveis com restrição judicial: 13 unidades com indisponibilidade ou arrolamento por dívidas tributárias.
- Compras recentes (2018-2023): 16 imóveis totalizando R$ 44,2 milhões.
Destaque para duas aquisições: uma casa em Mangaratiba, comprada por R$ 9 milhões via TSB Administradora, e um apartamento na Avenida Lúcio Costa, no Rio, adquirido por R$ 22 milhões pela SMP ADM. Em 2025, Sarah Poncio comprou uma sala comercial na Avenida das Américas por R$ 723,8 mil.
Dívidas estaduais e garantias em Recife
O cerco não se limita à esfera federal. O FNCP identificou ao menos cinco execuções fiscais de ICMS no Estado do Rio. Juntas, somavam R$ 10,6 milhões em origem, atualizados para cerca de R$ 13 milhões atualmente.
Em um desses processos, três imóveis localizados no Recife foram ofertados como garantia. Houve determinação judicial de penhora, mas, até o fechamento do levantamento, a medida não havia sido efetivada nos autos.
O motor invisível: o mercado ilegal de cigarros
Para entender a origem da capacidade financeira, o relatório contextualiza o setor. Dados da Ipsos Ipec citados pelo FNCP indicam que 31% dos cigarros vendidos no Brasil em 2025 vieram do mercado ilegal, movimentando 32 bilhões de unidades.
A evasão fiscal estimada apenas nesse ano chega a R$ 8,5 bilhões. Em contrapartida, o setor formal recolheu R$ 26,5 bilhões em IPI, PIS/Cofins e ICMS. O fórum projeta perdas acumuladas de R$ 110 bilhões nos últimos 12 anos. Edson Vismona, presidente do FNCP, aponta que a alta lucratividade e o controle territorial atraem o crime organizado para essa cadeia.
A conexão Adilsinho e a “Máfia do Cigarro”
O documento vincula diretamente o grupo Poncio ao entorno de Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Segundo o FNCP, o contraventor exerce influência sobre o comércio ilegal de cigarros na capital fluminense e na Baixada.
A ligação já aparecia na 5ª fase da Unha e Carne, que investigou pagamentos do “Jogo do Bicho” e da “Máfia do Cigarro” a agentes públicos. Na fase atual, a PF mira justamente a estrutura que permitiria a administração e ocultação desses recursos, tendo o sobrinho de Adilsinho como peça central.
O que observar nos próximos capítulos
A convergência entre o dossiê patrimonial do FNCP e a investigação criminal da PF sinaliza uma mudança de eixo: sai a discussão puramente tributária, entra a apuração de ocultação de ativos e lavagem. Dois movimentos merecem atenção imediata:
- Efetivação das penhoras: Se a Justiça conseguir tornar indisponíveis os imóveis já identificados — especialmente os de alto valor no Rio e Mangaratiba —, a capacidade de manobra do grupo diminui drasticamente.
- Desdobramento da quebra de sigilo: Os dados extraídos do celular de Poncio ainda estão sendo processados. Novas fases da Unha e Carne tendem a mirar “laranjas” e empresas de fachada citadas no relatório, como TSB e SMP ADM.
Para investidores e observadores do mercado formal, o caso reforça a distorção competitiva: empresas que cumprem a carga tributária integral competem com estruturas que, segundo as autoridades, financiam seu crescimento com a sonegação bilionária e proteção de redes ilícitas.
