O dólar fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,446, cravando a maior valorização semanal desde a crise de 2008. O Ibovespa, por sua vez, desabou 18% em cinco dias, pior marca desde o choque da pandemia. O que explica esse movimento violento e, mais importante, onde ele pode parar?
A semana pós-eleição transformou o cenário local em um campo minado. A incerteza fiscal falou mais alto que qualquer fundamento técnico, empurrando o real para o fundo do poço entre as moedas emergentes.
O tamanho do estrago nos números
Os dados da B3 e do mercado de câmbio não deixam dúvidas: foi um massacre. Confira o resumo da destruição de valor apenas em outubro:
- Dólar à vista: R$ 5,446 (+1,09% no dia / +9,15% na semana / +5,27% no mês);
- Máxima intradiária: R$ 5,463 — maior nível de fechamento do ano;
- Ibovespa: 167.921 pontos (-0,75% no dia / -18,12% na semana / -9,88% no mês);
- Saldo estrangeiro: Saída líquida de quase R$ 7,6 bilhões em apenas três pregões.
Para colocar em perspectiva: a bolsa não via uma sangria semanal tão intensa desde março de 2020. O câmbio, desde o colapso do Lehman Brothers.
Por que o real derreteu tão rápido
O gatilho imediato foi a reeleição de Lula, mas o combustível veio da dúvida sobre a âncora fiscal. O mercado precificou o risco de expansão de gastos sem contrapartida de receita antes mesmo de o novo ministro da Fazenda ser anunciado.
A formação da Ptax de fim de mês amplificou a volatilidade na manhã de sexta. Com o feriado de Finados na segunda-feira (2), a corrida por proteção cambial (hedge) antecipou demanda por dólares, secando a liquidez e exagerando a cotação.
Mas o efeito mais relevante aparece na fuga de capital externo.
O êxodo do capital estrangeiro
Na segunda-feira (26), o circuito breaker foi acionado logo na abertura — sinal claro de pânico institucional. Nos três pregões seguintes, os “gringos” retiraram R$ 7,6 bilhões do mercado secundário de ações.
Esse movimento não é apenas emocional. Reflete a realocação global de portfólios: juros altos nos EUA + incerteza fiscal no Brasil = ativo de risco barato demais para segurar.
O vento contrário lá fora
Não foi só o Brasil. O S&P 500 caiu 1,82% na mesma sessão, puxado pelo setor de tecnologia e pelas dúvidas sobre o retorno dos bilhões investidos em inteligência artificial.
O índice DXY, que mede o dólar contra moedas fortes, mal se moveu (+0,01%), provando que a alta do real foi idiossincrática. Ou seja: o problema é nosso, não do mundo.
O que observar daqui para frente
A agenda da próxima semana será definidora. O anúncio da equipe econômica e os primeiros sinais do arcabouço fiscal ditam se o dólar consolida acima de R$ 5,50 ou corrige para baixo.
Fique atento a três variáveis: a velocidade da definição do Ministério da Fazenda, a reação da curva de juros futura (DI) e o fluxo cambial com o retorno dos feriados. Se o fiscal não aparecer, R$ 5,50 vira piso, não teto.
