Meio Ambiente

O segredo das praias que crescem: SC gasta R$ 178 mi, mas a areia some em anos

Obra de alargamento de faixa de areia em praia de Santa Catarina com investimento público milionário
Praia catarinense com areia artificial: R$ 178 milhões investidos, mas o mar devolve a conta em poucos anos.

Santa Catarina lidera o ranking nacional de alargamentos de faixa de areia, com nove obras concluídas e duas a caminho, mas o mar cobra a conta em velocidade surpreendente. O investimento já supera R$ 178 milhões em dinheiro público, porém a durabilidade das intervenções virou o maior ponto de interrogação para gestores e investidores. A pergunta que fica: estamos comprando tempo ou apenas adiando o inevitável?

O caso de Balneário Piçarras expõe a fragilidade do modelo. Primeira cidade a tentar a engorda, em 1998, viu a areia sumir e precisou repetir a dose em 2008, 2012 e novamente em abril de 2026 — somando R$ 24,2 milhões só na última etapa. A prefeitura admite: a técnica não elimina a erosão, funciona apenas como “reserva extra” de sedimentos.

O mapa dos milhões enterrados na areia

O litoral catarinense virou laboratório a céu aberto. Florianópolis concentra três das maiores intervenções recentes: Canasvieiras (R$ 10,5 mi, 2019-2020), Ingleses (R$ 23,1 mi, 2023) e Jurerê (R$ 26,8 mi, 2023). Balneário Camboriú protagonizou a megaobra de R$ 66,8 milhões, concluída em 2021, que alargou a Praia Central de 25 para 70 metros ao longo de 5,8 km.

No Norte do estado, Itapoá alargou três praias de uma vez (Figueira do Pontal, Pontal do Norte e Princesa do Mar) em agosto de 2026, reaproveitando sedimentos da dragagem do canal portuário da Baía da Babitonga. Navegantes investiu R$ 27 milhões na Praia do Gravatá no mesmo mês. No radar, Meia Praia (Itapema) prevê R$ 64 milhões e Perequê (Porto Belo) aguarda licença prévia.

  • Balneário Camboriú: R$ 66,8 mi (maior obra única)
  • Jurerê (FLN): R$ 26,8 mi
  • Gravatá (Navegantes): R$ 27 mi
  • Ingleses (FLN): R$ 23,1 mi
  • Piçarras (última etapa): R$ 24,2 mi

Quando a fiscalização entra em cena

O Tribunal de Contas (TCE-SC) acordou para o risco em 2019, durante a licitação de Balneário Camboriú. Auditores descobriram que prefeituras não sabiam dimensionar projetos tão complexos — e o próprio órgão não tinha parâmetros para auditá-los. Em janeiro de 2026, o TCE publicou nota técnica obrigando municípios a detalhar vida útil, plano de manutenção e custos de mobilização de dragas.

O Ministério Público (MPSC) foi além. Em junho de 2026, entrou com ação civil pública para travar a licitação de Meia Praia, em Itapema. A promotoria detectou divergência: o projeto promete até 70 metros de alargamento, mas estudos independentes indicam ganho real entre 20 e 60 metros, variando pelo trecho. A prefeitura diz que o processo segue e a ordem de serviço ainda não saiu.

O custo ambiental que não entra na planilha

Dragar areia no fundo do mar e despejar na praia não é neutro. O biólogo Paulo Horta (UFSC) alerta: o processo revolve poluentes — metais pesados, nutrientes — criando plumas que alimentam algas tóxicas. Além disso, a operação emite CO₂ em escala industrial. “Sem compensação via restauração de restinga, dunas vegetadas e bancos de gramas marinhas, estamos apenas maquiando o problema”, resume.

O oceanógrafo Paulo Pagliosa (UFSC) vai na mesma linha: a urbanização desordenada bloqueou o fluxo natural de sedimentos das bacias hidrográficas. “Alargar praia sem planejar a bacia costeira é enxugar gelo”, define. Ele defende gestão integrada de longo prazo, não remendos eleitorais.

Existe jeito melhor? Itapoá ensina, mas não resolve tudo

A experiência de Itapoá é o ponto fora da curva. A dragagem do canal do porto gerou sedimentos compatíveis — e o Ibama exigiu o reaproveitamento nas três praias vizinhas. Resultado: custo menor, impacto reduzido, logística compartilhada. O TCE agora recomenda que municípios vizinhos licitem juntos para dividir a mobilização de equipamentos, que pode custar milhões só para chegar e sair.

Especialistas concordam: engorda de praia pode ser ferramenta tática em áreas já adensadas, mas precisa vir acompanhada de recuo de ocupação, restauração de ecossistemas e contabilidade de carbono honesta. Caso contrário, o próximo ressaca leva o investimento embora — e a fatura volta para o contribuinte.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o próximo ciclo: a judicialização do caso Itapema (pode criar precedente para travar obras sem estudos robustos), a aplicação prática da nota técnica do TCE nas novas licitações e a pressão por compensações climáticas reais — não só “plantio de mudas” no papel. Para quem investe em imóveis ou infraestrutura litorânea, a lição é clara: a linha da praia não é fixa, e o contrato com o mar não tem cláusula de permanência.