Economia

O segredo que ninguém conta sobre o IPO da Anthropic e o risco de crédito que assusta Wall Street

Logotipo da Anthropic com gráfico de ações em queda e selo de rating BB de alto risco
Anthropic enfrenta risco de IPO sem grau de investimento, segundo alerta da Blackstone.

A Blackstone avisou investidores: a Anthropic pode sair do IPO sem o selo de grau de investimento. A notícia, revelada pelo Financial Times, derrubou o Nasdaq 100 em 4,2% na sexta-feira e expõe uma fragilidade no modelo de financiamento das gigantes de IA.

Até poucos meses atrás, a gestora projetava rating investment grade até o fim do ano. Agora, admite que a faixa BB — alto risco, mas às portas do investment grade — é o cenário mais provável. A diferença não é semântica: define quem pode comprar a dívida e a que custo.

Por que o rating muda tudo para a Anthropic

A startup protocolou os papéis do IPO na segunda-feira (26), mirando a maior oferta da história. O prospecto prevê gastos superiores a US$ 800 bilhões em infraestrutura de computação até 2045. Para bancar esse plano, a empresa conta com US$ 112 bilhões em caixa e a expectativa de captar mais de US$ 100 bilhões na abertura de capital.

Sem o grau de investimento, fundos de pensão e seguradoras — compradores naturais de dívida corporativa de longo prazo — ficam impedidos ou restritos de participar. O custo do crédito sobe. A dependência de garantidores com rating alto (como a Broadcom) aumenta.

A engenharia financeira por trás do “Project North Star”

A operação que financia o arrendamento de 1,5 gigawatt em chips do Google revela a estrutura atual:

  • US$ 42 bilhões em dívida sênior, garantida pela Broadcom (rating A)
  • US$ 18 bilhões em dívida subordinada, exposta diretamente ao risco da Anthropic

A Blackstone colocou US$ 9 bilhões na tranche subordinada, com rendimento acima de 10%. A Kroll (KBRA) deu BB+ com perspectiva positiva; a Morningstar DBRS, BB. As três grandes — Fitch, Moody’s e S&P — ainda não se pronunciaram.

O efeito cascata no mercado de tecnologia

A queda de sexta-feira não foi isolada. Resultados decepcionantes de Amazon e Intel já haviam azedado o humor sobre a sustentabilidade dos investimentos bilionários em IA. A notícia sobre o rating da Anthropic funcionou como gatilho: se a empresa mais “segura” do setor (com Google e Amazon como sócios) pode não obter investment grade, quem mais estaria vulnerável?

Gestores de portfólio especializados em tech resumem: “É tudo uma questão de acesso ao crédito. Se não tem investment grade, o custo sobe, o que não é bom para ninguém.”

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o desfecho:

  • Posicionamento oficial de Fitch, Moody’s e S&P — o silêncio delas pesa mais que as notas das agências menores
  • Reação dos investidores institucionais na precificação do IPO — se exigirem prêmio de risco alto, a oferta pode encolher
  • Capacidade da Anthropic de demonstrar geração de caixa recorrente, não apenas projeções de capex

O IPO pode até acontecer — a demanda por exposição a IA é voraz. Mas os termos da dívida pós-oferta vão revelar se o mercado compra a tese de que infraestrutura de IA é ativo de risco controlado ou aposta especulativa disfarçada de tecnologia.