O MSCI Brazil afundou 18,7% em dólar num único dia após o segundo turno — a maior queda diária da história moderna, superando 2008, a pandemia e o episódio JBS. O Bradesco BBI avisa: quem aposta em recuperação rápida está ignorando décadas de evidências.
A tentação de “comprar na barganha” é forte, mas os números mostram um cenário bem mais árduo pela frente.
O tamanho do tombo que assustou até os veteranos
Não foi apenas a magnitude da queda. A dispersão entre os papéis do Ibovespa atingiu o recorde histórico. De um lado, empresas sensíveis a juros derreteram; do outro, exportadoras e dolarizadas serviram de refúgio.
Essa rotação violenta sinaliza que o mercado não está apenas precificando risco — está reestruturando carteiras às pressas.
O que a história ensina sobre “comprar no fundo”
O BBI vasculhou 18 episódios de quedas diárias superiores a 10% no Brasil desde os anos 90. A média para recuperar o prejuízo? Três meses. Parece pouco, mas a amostra de emergentes pinta um quadro mais sombrio.
Em 15 choques eleitorais em países emergentes nas últimas duas décadas, o Brasil ficou com o segundo pior resultado — só perde para a Argentina de 2019 (-40%). A média desses mercados:
- 3 meses depois: ainda 11% abaixo do pré-crise;
- 6 meses depois: continuavam no vermelho;
- Recuperação real: cerca de dois anos.
Valuation barato, sozinho, não atalhou esse caminho. “Comprar Brasil a 7 ou 8 vezes lucro não garantiu retornos acima da média”, resumem os estrategistas.
Rotação recorde: para onde o dinheiro está correndo
Enquanto o pânico varejava setores cíclicos, o capital migrou para ativos com receita em dólar ou proteção inflacionária. A dispersão de retornos entre ações do Ibovespa explodiu para o maior nível já registrado.
Isso significa que a “recuperação da Bolsa” não será uniforme. Alguns papéis já estão em nova alta; outros podem levar anos para voltar ao patamar de outubro.
O alívio (temporário?) do capital estrangeiro
Apesar do terremoto, os fluxos nos ETFs gringos ligados ao Brasil seguem resilientes. Dois motivos explicam: o país negocia a menos de 8 vezes o lucro projetado (segundo mais barato do mundo, só atrás da Coreia do Sul) e há poucas alternativas atrativas no universo emergente.
Mas o BBI alerta: fluxo passivo não é compromisso de longo prazo. Basta uma piora fiscal ou externa para essa liquidez secar.
O verdadeiro inimigo agora: os juros e o lucro das empresas
O choque de juros ainda não entrou inteiro nos modelos de lucro. O banco calcula que 74 das 106 empresas cobertas correm risco de revisão para baixo se a nova Selic se confirmar.
Para cada 100 pontos-base a mais na taxa, há nomes com potencial de queda de lucro superior a 20%.
A lista de “vítimas” e “vencedoras” da Selic alta
Mais vulneráveis (risco >20% por 100 bps):
- Anima (ANIM3)
- MBRF (MBRF3)
- JSL (JSLG3)
- Yduqs (YDUQ3)
- Ecorodovias (ECOR3)
Beneficiadas por juros maiores:
- Auren (AURE3)
- Banco do Brasil (BBAS3)
- Santander Brasil (SANB11)
Estratégia do BBI: defesa pura e olhar para fora
A recomendação segue neutra para Brasil. A carteira prioriza:
- Exportadoras/dolarizadas: Embraer (EMBR3), JBS (JBSS3), Suzano (SUZB3), WEG (WEGE3);
- Ganhadores com juros altos: Itaú Unibanco (ITUB4), BB Seguridade (BBSE3);
- Utilities atrativas: Eneva (ENEV3).
Enquanto a névoa fiscal e monetária não dissipa, os analistas veem risco-retorno superior em Chile, México e Peru — todos com recomendação overweight.
O que observar daqui para frente
Dois gatilhos ditam o próximo capítulo: a velocidade das revisões de lucro nos balanços do 4º trimestre e qualquer sinal concreto de âncora fiscal crível. Até lá, a volatilidade fica alta e a seletividade, obrigatória. Quem comprou achando que “já caiu tudo” pode ter apenas antecipado uma dor que o calendário histórico costuma cobrar em parcelas longas.
