O Ibovespa abriu esta sexta-feira (30) em queda de 1,09%, beirando os 167,3 mil pontos, e caminha para o quinto pregão consecutivo de perdas. Apenas sete ações resistiam no campo positivo nos primeiros minutos. O detalhe que intriga profissionais: o dólar dispara para R$ 5,43 aqui, enquanto o índice DXY recua 0,22% no exterior.
O choque do emprego que ninguém esperava tão cedo
A Pnad Contínua trouxe a taxa de desocupação a 5,2% no trimestre até setembro — o menor nível da série histórica iniciada em 2012. O recuo de 0,2 ponto percentual frente ao trimestre anterior e de 0,4 p.p. em doze meses veio em linha com a mediana das projeções, mas reforça um cenário de mercado de trabalho aquecido que complica a vida do Banco Central.
Com renda pressionada e consumo resiliente, a porta para novos aumentos da Selic permanece aberta. Para o investidor, a leitura é direta: juros altos por mais tempo tendem a segurar a recuperação das small caps e a valorização dos papéis de dividendos.
Petrobras brilha no fundo do poço (literalmente)
Em meio ao mar vermelho, a estatal brilhou sozinha. A companhia confirmou a terceira descoberta de petróleo no mesmo poço, o Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas. A perfuração no bloco FZA-M-59 começou em outubro de 2025 e, desde agosto, entrega resultados sucessivos.
- Descobertas anunciadas: agosto, início de outubro e quinta-feira (29).
- Localização: águas ultraprofundas da Margem Equatorial, costa do Amapá.
- Sinal da gestão: “Persistência técnica nos deixa otimistas”, disse a presidente Magda Chambriard.
A notícia injeta ânimo na tese de nova fronteira exploratória, mas o impacto imediato no preço da ação (PETR4) foi ofuscado pelo vendaval macroeconômico.
Petróleo explode e leva dólar emergente junto
O barril do Brent para dezembro saltou 2,13%, a US$ 117,33, e o WTI avançou 2,18%, a US$ 104,22. O gatilho: novos ataques a navios no Estreito de Ormuz. Donald Trump afirmou que a guerra com o Irã “terminará em breve”, sem detalhar como.
A alta da commodity pressiona a inflação global e fortalece a moeda americana frente a pares emergentes — exceto no índice DXY, que caiu. Essa divergência explica o comportamento schizofrênico do câmbio brasileiro: real fraco, dólar global fraco. O prêmio de risco local está caro.
Ruído político: Flávio Bolsonaro e a “não-intervenção” de Trump
Segundo a Reuters, o governo Trump não apoia a alegação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de ser “líder legítimo do Brasil”. A entrada do parlamentar nos EUA foi permitida, mas uma autoridade norte-americana foi taxativa: não há planos de endossar ambições políticas dele.
Trump, por sua vez, disse que a eleição brasileira “pareceu manipulada”, mas ressaltou que “se dá bem” com Lula. O ruído gera volatilidade de curto prazo, mas a sinalização prática é de pragmatismo diplomático entre as duas maiores economias das Américas.
Banco do Japão mantém juros, mas dezembro assombra
O BoJ manteve a taxa em 1,25%, conforme o consenso. Kazuo Ueda, porém, avisou: a inflação subjacente bateu a meta de 2% e a autoridade debaterá alta em cada reunião, inclusive a de dezembro.
“Não vamos ficar parados esperando”, disse Ueda. Para o carry trade global, o recado é claro: o iene barato como funding tem prazo de validade. Isso drena liquidez de ativos de risco no mundo todo, incluindo a B3.
O que observar daqui para frente
A semana encerra com um coquetel tóxico: fiscal incerto (“Lula 4”), juro real alto, petróleo em disparada e aperto monetário global sincronizado. Na próxima sessão, o foco vira para o payroll dos EUA e a prévia da inflação brasileira (IPCA-15). Se o dólar não devolver ganhos acima de R$ 5,40 com o DXY em queda, o sinal técnico para o Ibovespa piora drasticamente. Mantenha a gestão de risco apertada e evite alavancagem em beta alto.
