As ações da Intel despencaram quase 17% nas negociações estendidas após a gigante projetar receita e margens brutas bem abaixo do consenso para o trimestre atual. A projeção interrompe abruptamente a euforia que vinha sustentando a tese de recuperação da empresa nos últimos meses.
O mercado esperava US$ 17 bilhões para o quarto trimestre; a Intel sinalizou entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões. A diferença não está apenas no topo da demonstração de resultados.
A margem que assustou o mercado
O ponto nevrálgico da divulgação foi a previsão de margem bruta de 37% para o período em curso. Analistas projetavam algo próximo de 42%. A queda de cinco pontos percentuais reflete, segundo a empresa, o encarecimento repentino dos chips de memória — insumo crítico que a Intel não fabrica e precisa comprar no mercado aberto.
No trimestre encerrado em setembro, a receita totalizou US$ 16,5 bilhões, dentro do esperado. O lucro líquido ajustado ficou em US$ 2,8 bilhões. Números saudáveis, mas ofuscados pelo guidance (projeção oficial) decepcionante.
PC fraco e foundry sob pressão
O diretor financeiro, David Zinsner, foi direto: a fraqueza no mercado de PCs deve persistir pelo menos até o primeiro semestre de 2025. Essa divisão, carro-chefe da receita, entregou US$ 15,4 bilhões no último período.
Já a operação de foundry (fabricação para terceiros) faturou US$ 6,7 bilhões. O segmento ainda não atrai clientes de peso suficientes para diluir o custo fixo astronômico das novas fábricas — herança da gestão anterior que o CEO Lip-Bu Tan tenta agora endereçar.
- Receita Q3: US$ 16,5 bi (em linha)
- Guidance Q4: US$ 15 bi a US$ 16 bi (vs. US$ 17 bi esperados)
- Margem bruta Q4: ~37% (vs. ~42% esperados)
- Capex Q3: US$ 4 bi | Capex 2026: US$ 20 bi comprometidos
A aposta bilionária de Tan para 2026
Tan assumiu o comando com a missão de sanear o balanço após anos de gastos desenfreados. A venda de US$ 20 bilhões em ações realizada em agosto — no pico da valorização do ano — deu fôlego de caixa, mas diluiu acionistas.
Agora, a empresa promete “urgência” para desbloquear fornecimento e acelerar vendas. O plano inclui a fábrica Terafab no Texas, mencionada por Elon Musk como alvo de colaboração da SpaceX e Tesla. Detalhes operacionais, porém, seguem escassos.
O governo dos EUA converteu subsídios do CHIPS Act em participação de 10% na companhia, enquanto Nvidia e SoftBank injetaram capital. O respaldo político e estratégico existe; a execução operacional é a incógnita.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis ditarão se o tombo de 17% foi correção saudável ou início de nova tendência de baixa: a normalização do preço da memória, a entrada de clientes externos relevantes na foundry e a real velocidade de recuperação do ciclo de PCs no primeiro semestre.
O compromisso de US$ 20 bilhões em investimentos para 2026 está mantido. Se a margem não subir de volta para a casa dos 45%+ à medida que a capacidade nova amadurece, a pressão sobre o papel continuará — independentemente de subsídios ou anúncios de parcerias de peso.
