A BYD confirmou que o primeiro veículo totalmente montado em solo brasileiro sai da linha de produção da Bahia ainda este ano. A meta agressiva coloca a montadora chinesa em rota de colisão direta com as regras de conteúdo regional do Mercosul. O que está em jogo vai muito além de uma placa de “feito no Brasil”.
Em coletiva na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), o vice-presidente da fábrica, Alexandre Baldino, cravou o cronograma: os complexos de estamparia, soldagem e pintura entram em fase final de testes em novembro. A estreia comercial fica para dezembro, com o Atto 2 — híbrido plug-in que roda a gasolina ou etanol e custa entre R$ 149.990 e R$ 166.660.
O salto que muda a conta do Mercosul
Até aqui, a unidade de Camaçari recebia carros pré-montados da China para finalização local. A inauguração dos três novos complexos — estamparia, soldagem e pintura — vira essa lógica. A chapa de aço chega bruta, entra no molde, é soldada, pintada e só então segue para a montagem final com motor, portas, vidros e pneus.
Na prática, o índice de nacionalização salta para atender a exigência de 35% de conteúdo local do bloco sul-americano. Isso blinda a BYD de barreiras tarifárias e abre caminho para exportar para Argentina, Uruguai e Paraguai sem penalidades.
O porto que faltava no tabuleiro
Baldino não escondeu o apetite pelo Terminal Portuário Privativo Miguel de Oliveira, o antigo “Porto da Ford” em Candeias, a 35 km da fábrica. Desativado desde a saída da montadora americana em 2021, o ativo pertence hoje ao governo baiano.
A lógica é direta: o canal de Cotegipe, na Baía de Aratu, foi desenhado para escoar veículos. Reativá-lo transforma a Bahia em hub de exportação para América do Sul, Central e Norte. “Nossa estratégia é sermos uma empresa regional contígua”, resumiu o executivo.
Números que desenham o tamanho da aposta
- R$ 11 bilhões já investidos em 1 milhão de m²
- 700 veículos/dia na capacidade atual
- 4 modelos em produção: Dolphin Mini, Song Pro, Atto 2 e King
- 9 mil empregos diretos hoje — meta de 10 mil até dezembro
- 20 mil vagas quando o complexo estiver completo
- R$ 3,9 mil de salário médio — 24% acima da indústria baiana
A parceria com o Observatório da Indústria da Fieb vai além da contagem de vagas. Economistas cruzam dados da RAIS, CAGED e bases governamentais para radiografar o antes e depois de Camaçari. O terreno já abrigou outra grande montadora; o comparativo histórico será inevitável.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis vão ditar o ritmo daqui para frente: a velocidade da curva de aprendizado nos novos complexos industriais, a negociação pelo porto de Candeias e a resposta da cadeia de fornecedores locais à demanda por peças com certificação de origem. Se a BYD entregar o Atto 2 100% nacional em dezembro com qualidade e custo competitivos, o caso vira referência para qualquer montadora que queira produzir — e exportar — a partir do Nordeste.
