O Fundo Monetário Internacional aprovou a liberação de mais US$ 900 milhões para a Argentina, mas a porta-voz Julie Kozack deixou um recado direto: a estabilização financeira não basta — é hora de transformar números positivos em empregos reais.
O desembolso faz parte do programa de US$ 20 bilhões fechado há um ano. A pergunta que fica: por que a economia “impressionante” do Fundo ainda não gerou vagas?
O paradoxo da estabilização sem contratação
Os técnicos do FMI classificam o desempenho macroeconômico argentino como “impressionante”. Inflação contida, déficit público zerado, reservas em reconstrução. No papel, o ajuste funcionou.
Na prática, a União Industrial Argentina contabiliza cerca de 90 mil postos de trabalho extintos desde agosto de 2023. O corte drástico de gastos do governo Milei estancou a sangria fiscal, mas também freou a atividade produtiva.
Kozack foi clara: “é preciso ampliar os ganhos de estabilização em direção a um crescimento mais sólido e à criação de empregos”. Tradução: o dever de casa fiscal está feito — falta o dever de casa do desenvolvimento.
Três alavancas que o FMI aponta para virar a chave
- Flexibilização trabalhista: regras mais ágeis para contratação no setor privado, sem retirar direitos essenciais.
- Concessões de infraestrutura: mais de US$ 70 bilhões em projetos já aprovados precisam sair do papel.
- Estímulo à demanda interna: investimento privado e consumo das famílias precisam substituir o gasto público como motor da economia.
As reformas trabalhistas e de mercado aprovadas no primeiro semestre abrem caminho. O gargalo agora é execução.
O risco-país e a blindagem das reservas
Diante de possíveis turbulências externas, o conselho do Fundo é direto: mantenha o programa nos trilhos, sobretudo na acumulação de reservas internacionais líquidas. É o colchão que evita sobressaltos cambiais.
O próximo desembolso deve passar pelo conselho de diretores no início de dezembro. A sinalização política é de continuidade — mas o mercado cobra resultados sociais.
O que observar daqui para frente
Três indicadores dirão se a estratégia está funcionando: taxa de desemprego formal, volume de investimento privado anunciado e velocidade das concessões de infraestrutura. Se esses números não se moverem nos próximos dois trimestres, o “sucesso macroeconômico” continuará sendo uma vitória apenas no balanço do Fundo — não na vida de quem procura trabalho.
