Pesquisadores da UFRPE iniciaram em Fernando de Noronha os testes de campo do Freedom, dispositivo já consagrado na Austrália e nos EUA que promete criar uma zona de exclusão de seis metros ao redor de embarcações e banhistas. A validação brasileira não é burocracia: diferenças de salinidade, temperatura e espécies locais podem ditar o sucesso ou o fracasso da tecnologia no mercado nacional.
O equipamento ataca o “radar” natural dos tubarões. Ele emite pulsos elétricos que saturam as ampolas de Lorenzini, órgãos sensoriais responsáveis por detectar campos bioelétricos de presas. O resultado esperado é uma barreira invisível que repele o animal sem causar dano físico, abrindo caminho para duas aplicações comerciais imediatas: segurança de salvamentos e eficiência pesqueira.
Por que o Brasil precisa de teste próprio
O fabricante procurou o Projeto Ecotuba justamente para validar o hardware em águas tropicais. A condutividade da água varia com salinidade e temperatura, alterando a propagação do campo elétrico gerado pelo dispositivo.
Além disso, o arquipélago abriga um mix de espécies distinto do encontrado na Austrália. O que funciona para um tubarão-branco ou tigre em águas temperadas pode não ter a mesma eficácia sobre as populações residentes em Noronha, onde a equipe da UFRPE monitora o comportamento desses predadores há 12 anos.
Dois mercados, um dispositivo: salvamentos e pesca
A viabilidade econômica do Freedom depende da comprovação em dois cenários de alto custo:
- Segurança pública: Guarda-vidas do Corpo de Bombeiros testam o uso individual durante resgates. A lógica é reduzir o risco de aproximação predatória quando o profissional está vulnerável na água.
- Pesca artesanal: Pescadores relatam perdas significativas por depredação — tubarões consumindo a captura antes da retirada do anzol. A adaptação do equipamento para instalação fixa em embarcações visa proteger a renda da frota local.
O passivo de risco que justifica o investimento
Dados do Comitê Estadual de Monitoramento (CEMIT) mostram 84 incidentes com tubarões em Pernambuco desde 1992. A maioria (70) concentra-se na Região Metropolitana do Recife, com 27 óbitos registrados. Fernando de Noronha contabiliza 14 ocorrências, porém zero fatalidades.
Essa estatística explica a retomada das pesquisas no continente após 11 anos de paralisação. A eficácia comprovada em Noronha serve como “prova de conceito” para uma eventual implantação em larga escala nas praias urbanas do Grande Recife, onde a demanda por mitigação de risco é crítica.
O caminho até a compra pública
Se os relatórios técnicos atestarem a eficiência do campo elétrico nas condições brasileiras, a recomendação formal ao Governo de Pernambuco será o passo seguinte. A aquisição envolveria dotação orçamentária para equipar postos de salva-vidas e, potencialmente, subsidiar a adoção pela frota pesqueira artesanal.
O modelo de negócio, portanto, transita da validação científica para uma possível contratação de tecnologia de defesa pelo setor público, movimentando uma cadeia que inclui importação, manutenção e treinamento operacional.
O que observar nos próximos meses
O cronograma prevê testes contínuos com variações de profundidade, correnteza e horário. Investidores e gestores devem monitorar a publicação dos laudos técnicos do Ecotuba: a definição da taxa de falha aceitável em situações reais de resgate será o gatilho para licitações. Paralelamente, a adaptação do hardware para resistir à corrosão marinha prolongada em casco de barco definirá a escalabilidade no setor produtivo.
