Economia

Senado libera R$ 270 mi para canavieiros do Nordeste; veja quem paga a conta

Plantação de cana-de-açúcar no Nordeste com colheitadeira, representando subvenção de R$ 12/tonelada aprovada pelo Senado
Senado aprova subvenção de R$ 12 por tonelada de cana para produtores nordestinos sem teto definido para o benefício

O Senado aprovou nesta quarta-feira (28) uma subvenção de R$ 12 por tonelada de cana-de-açúcar para produtores do Nordeste atingidos por tarifas americanas ou eventos climáticos extremos. O texto segue agora para sanção presidencial e carrega um detalhe que passa despercebido: não há teto definido para o benefício.

A votação foi simbólica, sem registro nominal de votos. Mas os números por trás da medida revelam uma conta que vai muito além dos canaviais.

De onde sai o dinheiro e quem realmente ganha

O projeto incorpora uma medida provisória do governo federal enviada em julho. Segundo o relatório do deputado Lula da Fonte (PP-PE), a previsão orçamentária mantida é de R$ 270 milhões. A estimativa oficial aponta 16 mil produtores beneficiados na região.

Para colocar em perspectiva: a Conab projeta safra de 55 milhões de toneladas no Nordeste para 2026/27. Se toda a produção acessasse o benefício, a conta ultrapassaria R$ 660 milhões — mais que o dobro do valor reservado.

  • Valor por tonelada: R$ 12
  • Produtores estimados: 16 mil
  • Previsão orçamentária: R$ 270 milhões
  • Safra projetada 2026/27: 55 milhões de toneladas

O questionamento que não calou no plenário

Durante a votação na Câmara, a deputada Adriana Ventura (Novo-SP) classificou a medida como injusta com produtores de outras regiões. O argumento: a subvenção atende apenas o Nordeste, enquanto secas e geadas afetam canaviais em São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul sem contrapartida semelhante.

O governo defende que a região nordestina enfrenta vulnerabilidade estrutural agravada pelo tarifaço americano sobre o etanol. A contrapartida política, no entanto, é evidente: a bancada do Nordeste foi decisiva para a aprovação.

O “jacaré” que veio na garupa do texto

O mesmo projeto autoriza uma linha de financiamento de R$ 14,5 bilhões via BNDES para renovação de frotas de ônibus, micro-ônibus e caminhões. O valor supera em 53 vezes o montante destinado aos canavieiros.

Poderão acessar o crédito: transportadores autônomos de carga, cooperados de transporte e MEIs do setor. A taxa de juros e as condições operacionais ainda dependem de regulamentação do banco de fomento.

O que observar nas próximas semanas

A sanção presidencial é o próximo passo. O veto parcial ao trecho sem teto orçamentário é uma possibilidade técnica, mas carrega custo político alto em ano pré-eleitoral. Enquanto isso, a portaria do Ministério da Agricultura com as regras operacionais da subvenção deve sair em até 30 dias.

Para o empresário do agronegócio, o sinal é claro: políticas setoriais concentradas em regiões específicas tendem a se repetir. A dica prática? Monitorar se o modelo será replicado para outras culturas — e preparar o fluxo de caixa para não depender de subvenções que chegam com atraso e critérios incertos.