Donald Trump afirmou que a eleição brasileira “pareceu fraudada” e ecoou o discurso da campanha derrotada, mas evitou conflitar com Lula: “me dou muito bem com ele”. A reação de Brasília foi imediata e direta.
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a fala como “totalmente equivocada” e lembrou regra basilar: não se interfere na política alheia. O episódio expõe tensão comercial latente.
O que Trump disse exatamente
Em conversa com jornalistas nesta segunda-feira (26), o presidente dos EUA mirou a prorrogação de duas horas no horário de votação, decidida pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, após restrições no transporte coletivo.
- “Acho que pareceu ruim a eleição, o jeito que foi organizada”
- “Muito estranho” — foi o adjetivo escolhido para a extensão do prazo
- “Pareceu fraudada” — termo usado sem apresentar provas
Questionado se agiria, Trump recuou: “Eu não governo o Brasil, eu governo os Estados Unidos”.
Os números que Trump ignorou
Lula obteve 64,3 milhões de votos (52,1%). Flávio Bolsonaro, 59,8 milhões (47,9%). Diferença de 4,5 milhões — margem superior à de 2022. A participação foi de 79,8%, a maior desde 1998.
A prorrogação afetou apenas seções onde urnas não haviam sido fechadas às 17h. Não houve recontagem nem alteração de regras após o início da apuração.
Resposta de Alckmin: soberania e diversificação comercial
“Primeiro, não se interfere na política de outro país. Segundo, não tem nenhum referencial para dizer isso. O Brasil é um exemplo para o mundo, de urna eletrônica, segurança jurídica.”
O vice foi além. Citou acordos recentes como contraponto ao tarifaço americano que travou exportações brasileiras:
- Mercosul–Singapura (concluído)
- Mercosul–União Europeia (concluído)
- Mercosul–Canadá (encaminhado)
“Mesmo com o tarifaço batemos recorde de exportação”, afirmou.
O pano de fundo que a Casa Branca não admite
Trump jurou neutralidade: “Não escolhi lado, apenas acompanhei”. Mas 31 parlamentares democratas enviaram carta à Casa Branca em 24 de setembro denunciando “esforço coordenado” para favorecer Flávio Bolsonaro.
A lista de pressões atribuídas ao governo Trump inclui:
- Tarifaço como retaliação à possível condenação de Jair Bolsonaro
- Ameaça de aplicar a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes
- Declarações públicas de aliados de Trump endossando a campanha adversária
O PL, partido de Flávio, reconheceu a vitória de Lula horas depois — sinal de que a contestação não encontrou respaldo interno.
O que observar daqui pra frente
A relação bilateral entra em zona cinzenta. Três variáveis definirão o rumo:
- Se o tarifaço será mantido, reduzido ou expandido nos próximos 90 dias
- Se o Brasil acelera ratificação dos acordos com UE, Canadá e Singapura
- Se a Casa Branca formaliza pedido de desculpas ou dobra a aposta na narrativa de fraude
Para o empresariado, o recado é prático: diversificação de mercados deixou de ser estratégia — virou sobrevivência. Quem depende exclusivamente do canal EUA-Brasil carrega risco político não precificado.
