Celina Leão (PP) confirmou a reeleição ao governo do Distrito Federal com 57,18% dos votos válidos, mas o placar final de 987.142 a 739.130 esconde uma geografia eleitoral que explica muito mais do que o resultado bruto. A divisão não foi uniforme: ela revela duas capitais distintas convivendo no mesmo território.
Enquanto a candidata vencia em 17 das 19 zonas eleitorais, o adversário Leandro Grass (PT) manteve uma fortaleza intransponível no Plano Piloto. Entender essa fratura é essencial para quem negocia contratos, planeja expansão ou monitora o humor político da capital federal.
O empate técnico que não existiu nas periferias
Nas zonas 1 (Asa Sul) e 14 (Asa Norte), Grass venceu com margens mínimas: 50,07% e 54,03%, respectivamente. Fora dali, o cenário inverte radicalmente. Nas três zonas de Ceilândia (8, 16 e 20), que somam mais de 432 mil eleitores, Leão cravou vantagens entre 17 e 21 pontos percentuais.
A zona 15 (Águas Claras e Taguatinga Sul), maior colégio eleitoral do DF com 76 mil votos para a vencedora, funcionou como um termômetro fiel do resultado geral: 57,54% a 42,46%. No primeiro turno, ela tinha ficado atrás nessa mesma zona (48,24%). A virada ali selou a eleição.
Abstenção caiu, mas votos nulos subiram onde ninguém esperava
O comparecimento melhorou em relação à primeira etapa. A abstenção variou entre 16,10% (Zona 11) e 18,80% (Zona 2), com números absolutos mais altos em Ceilândia Norte (27,6 mil faltosos).
O dado anômalo surgiu na Asa Norte: única zona onde votos nulos cresceram tanto em volume (283 a mais) quanto em percentual (2,96% para 3,23%). Em Santa Maria (Zona 4), brancos e nulos bateram recordes percentuais (4,05% e 4,37%), sinalizando rejeição ativa às duas opções.
- Zona 16 (Ceilândia Norte/Brazlândia): Maior volume absoluto de brancos (4.118) e nulos (5.355) do DF.
- Zona 5 (Sobradinho): Maior abstenção proporcional (17,16%).
- Zona 19 (Taguatinga): Maior vantagem percentual de Leão (61,93%).
O que o Plano Piloto esconde sobre o resto do DF
A vitória de Grass no coração administrativo mascara uma realidade: nas regiões de maior densidade populacional e menor renda média — Samambaia, Recanto das Emas, Gama, Santa Maria —, a votação em Leão superou consistentemente os 56%, chegando a 61,78% na Zona 13.
Essa assimetria sugere que pautas de mobilidade, saúde e segurança pesaram mais que o debate ideológico concentrado no Eixo Monumental. Para o setor produtivo, indica onde a base de apoio ao governo atual é mais sólida e onde a oposição mantém capital político residual.
O que observar daqui para frente
A transição de votos do primeiro para o segundo turno mostra que Leão capturou quase a totalidade do eleitorado que não votou nela inicialmente nas regiões periféricas. Já Grass não conseguiu furar a bolha do Plano Piloto. Se a futura gestão priorizar investimentos nas zonas onde a margem superou 60%, a reconfiguração do mapa político-administrativo do DF pode se consolidar por mais um ciclo. Acompanhe a execução orçamentária por região administrativa: será o termômetro real dessa geografia eleitoral.
