A Anthropic, dona do chatbot Claude, caminha para uma abertura de capital que pode precificar a empresa em US$ 2 trilhões — a maior oferta inicial da história. Sete ex-funcionários da OpenAI, que saíram em 2021 por discordarem do rumo da IA, tornam-se, no papel, os novos bilionários do setor.
O movimento não é apenas financeiro. A ruptura expôs uma fratura ideológica no Vale do Silício: até onde a inteligência artificial deve ser aberta e quem decide seus limites.
O racha que nasceu de um jantar e um ensaio de 3.800 palavras
Dario Amodei, 43 anos, CEO da Anthropic, foi vice-presidente de pesquisa na OpenAI e liderou o desenvolvimento do GPT-2 e GPT-3. Em setembro, publicou um texto de 3.800 palavras defendendo uma desaceleração global no desenvolvimento de IA. Semanas depois, jantou com Donald Trump e almoçou na Casa Branca com outros líderes do setor.
A irmã e cofundadora, Daniela Amodei, 39 anos, preside a empresa e cuida das operações. Formada em literatura inglesa, trabalhou em campanhas políticas e no gabinete do deputado Matt Cartwright antes de entrar na Stripe e, depois, na OpenAI, onde chegou a vice-presidente de segurança e políticas. O casal Amodei já morou junto em uma casa compartilhada em São Francisco — detalhe que explica, em parte, a cultura de “resolver conflitos internos” que Daniela descreve como herança de infância.
Os outros cinco nomes por trás do Claude
- Jared Kaplan, 42 — diretor científico, criou o método de “IA constitucional” para alinhar modelos a princípios escritos. Doutor em física por Harvard, conheceu Dario dividindo carona para um evento da bolsa Hertz.
- Sam McCandlish, 36 — arquiteto-chefe, focado em treinamento de larga escala. Ex-pesquisador de segurança da OpenAI, equipe do GPT-3 e Codex. Disse em 2024: “Nenhum de nós queria fundar uma empresa — sentimos que era nosso dever.”
- Tom Brown, 39 — diretor de computação, supervisiona a infraestrutura de treino. Defensor da expansão de data centers, negociou com o governo dos EUA após restrições de acesso a modelos avançados (Fable 5 e Mythos 5). Ex-funcionário nº 20 da OpenAI.
- Jack Clark, 38 — chefe de benefício público desde março, criou o Anthropic Institute para estudar impactos sociais e econômicos da IA. Ex-jornalista do The Register e Bloomberg, entrou na OpenAI em 2016 para estratégia e comunicação.
- Christopher Olah, 34 — lidera pesquisa de interpretabilidade, engenharia reversa de redes neurais. Bolsista Thiel aos 19 anos, cofundou a revista Distill. Em maio, discursou no Vaticano ao lado do papa Leão XIV pedindo escrutínio rigoroso do desenvolvimento de IA.
Por que a valorização de US$ 2 trilhões não é fantasia
A Anthropic levantou mais de US$ 7 bilhões desde a fundação, com aportes de Amazon, Google e Salesforce. O modelo Claude compete diretamente com o GPT-4 em benchmarks de raciocínio e programação, e a empresa fatura com API empresarial e assinaturas do Claude Pro.
Mas o IPO depende de variáveis fora do controle dos fundadores: apetite do mercado por ações de IA, regulação americana sobre exportação de chips e modelos, e a própria evolução da concorrência — OpenAI, Google DeepMind, xAI e Meta disputam o mesmo talento e capital.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se a tese de US$ 2 trilhões se sustenta: (1) a receita recorrente anual (ARR) ultrapassando a casa de US$ 1 bilhão de forma consistente; (2) a capacidade de escalar data centers sem depender exclusivamente de provedores de nuvem rivais; (3) a postura regulatória dos EUA — se o governo tratar IA como infraestrutura estratégica, a Anthropic ganha vantagem por já dialogar com a Casa Branca.
Para investidores e executivos, o recado é claro: a próxima grande disputa não é apenas por modelo melhor, mas por quem define as regras do jogo. Os sete fundadores da Anthropic já escolheram seu lado.
