Cultura

O segredo que travou Flávio Bolsonaro: pastores jogaram parados até setembro

Pastores evangélicos Silas Malafaia e Samuel Ferreira em reunião política com Flávio Bolsonaro
Líderes evangélicos resistiram a apoiar Flávio Bolsonaro até vazamento no STF em setembro.

A cúpula evangélica resistiu a apoiar Flávio Bolsonaro durante quase toda a pré-campanha ao Senado pelo Rio de Janeiro. A adesão em massa só aconteceu em setembro, motivada por um vazamento explosivo no Supremo Tribunal Federal.

Mas o que levou líderes como Silas Malafaia e Samuel Ferreira a preferir Tarcísio de Freitas e a comparar a família Bolsonaro a um sacerdote bíblico negligente? A resposta revela como o cálculo de poder fala mais alto que a fé na política brasileira.

A resistência silenciosa e a preferência por Tarcísio

Em público, o discurso era de união. Nos bastidores, porém, pastores de megaigrejas como a Assembleia de Deus Belém e Madureira viam Flávio como um risco eleitoral. Silas Malafaia chegou a declarar em vídeos que a candidatura “não é negócio de família” e defendeu abertamente o nome de Tarcísio de Freitas para o projeto de poder da direita.

O receio não era apenas ideológico. Pesava o histórico de controvérsias do senador: a mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, imóveis quitados com dinheiro vivo, recursos do ex-banqueiro Vorcaro para um filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre encontros com o empresário.

Em conversas reservadas, lideranças usavam uma analogia bíblica dura: comparavam Jair Bolsonaro a Eli, o sacerdote que não conteve os filhos corruptos. Para eles, Flávio comprometia a sucessão de 2026.

O gatilho de setembro: Mendonça, Moraes e o “incêndio”

O cenário travou até que o ministro André Mendonça tornou públicas mensagens entre Alexandre de Moraes e o assessor Eduardo Vorcaro, além do contrato deste com a esposa do magistrado. O vazamento incendiou a base bolsonarista e mudou a equação dos pastores.

Foi só após esse episódio — no final de setembro — que a apóstola Valnice Milhomens profetizou que “não haverá inferno que impeça o mover de Deus” e o bispo Samuel Ferreira pediu para o público repetir “irmão vota em irmão” no Maracanãzinho. A religião entrou em campo tardiamente, não por convicção inicial, mas por oportunidade.

O rótulo de “novo crente” e a quebra de confiança

Além dos esqueletos no armário, Flávio carrega uma rejeição teológica. Interlocutores o descrevem como “novo crente”: um termo análogo a “novo rico”, para designar quem usa a fé politicamente sem domínio bíblico e frequenta a Comunidade das Nações, igreja vista como seduzida pelo poder.

Em abril, na Assembleia de Deus Belém, o deputado Marco Feliciano cobrou reciprocidade da família Bolsonaro, em vez de uma relação de via única. O recado foi direto: o apoio não é incondicional.

Pragmatismo tardio: o voto bolsonarista e a proximidade do poder

Quando finalmente subiram no palanque, os pastores agiram por cálculo frio. Flávio era o único nome da direita com o voto bolsonarista consolidado e chance real de vitória. Somaram-se a isso:

  • Pressão da base de fiéis por alinhamento;
  • Interesse estratégico em estar próximo de um futuro presidente da República;
  • Medo de perder influência caso a esquerda vencesse.

Antes da virada, admitiam entre si que 2026 já estava perdido e projetavam Tarcísio apenas para 2030.

O xadrez do futuro: Otoni de Paula e a ponte com o PT

O desfecho da eleição deixou uma peça solta no tabuleiro: o deputado Otoni de Paula. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, ele não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Vista com desconfiança pelo PT, sua figura pode se tornar a ponte que o partido e seus evangélicos nunca conseguiram construir com as grandes denominações.

Enquanto a direita lambe as feridas e alimenta teorias conspiratórias, a esquerda avalia se vale a pena abrir o diálogo. O pragmatismo que moveu os pastores em setembro pode ditar as alianças de 2026.

O que observar daqui para frente

O movimento evangélico não é monolítico. A adesão tardia a Flávio expõe uma liderança que negocia apoio em troca de acesso e pautas de costumes, mas que guarda reservas sobre a família Bolsonaro. Para investidores e analistas, o sinal é claro: o capital político religioso segue volátil e condicionado a quem controla a máquina federal e a narrativa nas redes sociais. A próxima disputa pelo comando do Senado e a articulação para 2026 testarão se a “via única” virou mão dupla.