Lula (PT) venceu o segundo turno entre brasileiros residentes no exterior com 53,86% dos votos válidos, contra 46,14% de Flávio Bolsonaro (PL). Mas o placar agregado esconde uma geografia eleitoral assimétrica que revela muito sobre o perfil da diáspora. O petista levou a melhor em 62 países e territórios; o senador, em 38.
Dos 916 mil eleitores aptos, apenas 381 mil compareceram — abstenção de 58,37%. Ainda assim, o segundo turno registrou cerca de 40 mil votos a mais que o primeiro. O que esse mapa diz sobre a influência política e econômica das comunidades brasileiras lá fora?
América: o reduto decisivo de Flávio Bolsonaro
Foi no continente americano que o candidato do PL construiu sua vantagem numérica bruta. Flávio somou 56,44% dos votos válidos da região, contra 43,56% de Lula. O motor foi único: os Estados Unidos.
Nos EUA, o senador recebeu 53.718 votos (62,65%), abrindo uma frente de mais de 21 mil votos sobre o presidente. Para efeito de comparação, a vantagem total de Lula no exterior inteiro foi de aproximadamente 28,6 mil votos. Sem a votação americana, o placar global se inverteria.
Outros destaques da região:
- Paraguai: 86,60% para Flávio (4.542 x 702).
- Argentina, Chile, Uruguai e Canadá: vitórias consistentes de Lula, todas acima de 52%.
- Cuba: 97,73% para o petista — maior percentual do mundo.
Houve viradas de turno na Costa Rica e na Venezuela (para Flávio) e no México e Guiana Francesa (para Lula). Em Nova York, Lula virou o placar da cidade.
Europa: a fortaleza petista e o peso de Portugal
Se a América deu volume a Flávio, a Europa deu a Lula a margem de segurança. O presidente cravou 67,12% dos votos válidos no continente, vencendo em 25 dos 27 países com urnas. A região concentrou quase metade de todos os votos válidos do exterior.
Portugal sozinho respondeu por 34.319 votos de Lula (59,42%), o maior colégio eleitoral único do candidato fora do Brasil. Alemanha (79,09%), França (83,96%), Espanha (68,42%), Reino Unido (63,34%) e Itália (59,99%) formaram um bloco coeso.
Flávio venceu apenas na Grécia (54,95%) e na Ucrânia (84,21%). Albânia e Bósnia e Herzegovina tiveram comparecimento zero.
Ásia e Oceania: volume contra capilaridade
O cenário asiático traz o dado mais contraintuitivo da eleição. Flávio Bolsonaro levou 69,76% dos votos válidos da região — sua maior porcentagem continental — mas empatou no número de países: 14 a 14.
A explicação está no Japão. O país asiático concentrou 28.538 dos 32.669 votos do senador na região (80,08%). Fora dali, a disputa é equilibrada. Lula venceu na China, Coreia do Sul, Jordânia, Líbano e Palestina.
- Nepal: 92,31% para Flávio — seu melhor percentual global.
- Malásia: virou para Flávio no segundo turno.
- Nova Délhi (Índia): virou para Lula na capital.
Dez países asiáticos — incluindo Armênia, Cazaquistão, Iraque e Paquistão — registraram comparecimento zero. Na Oceania, Lula venceu Austrália (63,46%) e Nova Zelândia (80,54%) com folga.
África: baixa adesão, vitórias simbólicas
O continente africano teve o menor volume absoluto: 1.490 votos válidos no total. Lula venceu em 13 países (836 votos), Flávio em 3 (654 votos).
O petista marcou percentuais altos em Angola (58,60%), Marrocos (83,78%), Nigéria (86,49%) e Senegal (72,84%). O senador venceu na África do Sul (57,92%), Guiné-Bissau (53,66% — margem de apenas 3 votos) e Moçambique (52,00%).
Dezessete países africanos não registraram um único voto. Na Líbia, onde Lula teve dois votos no primeiro turno, o comparecimento foi nulo no segundo.
O que observar daqui para frente
A geografia do voto expõe duas diásporas distintas: uma concentrada em economias centrais e países de língua portuguesa (Europa, Japão, EUA), outra dispersa em nações em desenvolvimento. Para investidores e gestores, o recado está na correlação entre fluxo migratório qualificado e preferência eleitoral.
O aumento de 40 mil votantes entre turnos sugere mobilização tardia — fenômeno a monitorar em 2026. Já a abstenção próxima de 60% mantém o eleitorado exterior como potencial latente, não como ator decisivo. O mapa de 2024 mostra onde a influência brasileira se organiza; o próximo ciclo dirá se ela se expande.
