Economia

Fintech bloqueia advogado ligado a Flávio Bolsonaro após detectar R$ 6,3 bi em apostas

Logotipo da fintech A55 sobre fundo de código binário e símbolos de alerta de compliance bancário
Fintech A55 bloqueia advogado Willer Tomaz após detectar R$ 6,3 bi em apostas na Blaze

A fintech A55 Sociedade de Crédito Direto encerrou a conta do advogado Willer Tomaz de Souza sob alegação de irregularidades graves. A decisão veio após o setor de compliance identificar movimentações atípicas que somam bilhões de reais em apostas na plataforma Blaze. O CPF do cliente foi bloqueado para novas operações e o caso foi comunicado ao Coaf.

Mas por que uma instituição com apenas R$ 3,1 milhões de capital social assumiu o risco de cortar um cliente de alto volume? A resposta revela como os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro estão funcionando — e onde eles ainda falham.

O volume que acendeu o alerta

Dados do Ministério da Fazenda mostram que Tomaz foi o maior apostador do Brasil em 2025, com R$ 5 bilhões em volume. Em 2026, mais R$ 1,3 bilhão foram registrados. A Blaze foi o destino prioritário das apostas nos dois anos.

  • 2025: R$ 5 bilhões em apostas
  • 2026: R$ 1,3 bilhão adicionais
  • Total: R$ 6,3 bilhões em dois anos
  • Plataforma principal: Blaze

Esses números colocam o advogado em um patamar incompatível com o perfil de renda declarado, segundo a nota técnica da Fazenda. A Blaze, por sua vez, teria deixado de cumprir obrigações de fiscalização que a autorizavam a operar no país.

Como a fintech detectou o problema

A A55 comparou as movimentações da conta com as diretrizes da lei de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo. O monitoramento buscou as chamadas red flags — operações incomuns ou não justificadas pelo perfil do usuário.

Quando o sistema identificou o padrão, a área de compliance acionou o protocolo padrão: bloqueio preventivo, encerramento da conta e comunicação obrigatória ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras. O procedimento é regra para qualquer instituição autorizada pelo Banco Central.

O cenário por trás da A55

A instituição, criada em 2022 e sediada na Consolação (SP), tem como sócios André Wetter e Hugo Mathecowitsch. Seu objeto social mistura serviços financeiros, desenvolvimento de software e atividades de cobrança.

Em julho deste ano, o Banco Central manifestou intenção de cancelar a autorização de funcionamento da A55. O motivo citado foi a falta de prática da atividade autorizada — ou seja, a instituição não estaria operando conforme o plano de negócios aprovado. O processo corre sob sigilo e ainda está em análise.

As investigações em curso

Willer Tomaz é investigado pela Polícia Federal em inquérito que também envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL). As suspeitas recaem sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A defesa do advogado afirma que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam na declaração à Receita Federal. Questiona, ainda, o vazamento de dados protegidos por sigilo fiscal.

A assessoria do senador informou que ele não é investigado no Supremo Tribunal Federal e que os autos ainda não foram convertidos em inquérito, aguardando manifestação da PGR.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem atenção nos próximos meses: a conclusão do processo administrativo do Banco Central contra a A55, o desdobramento do inquérito policial sobre a origem dos recursos apostados e a eventual regulamentação mais rígida para o setor de bets — que ainda opera em zona cinzenta no Brasil. Para o mercado financeiro, o caso reforça que compliance não é opcional: mesmo fintechs pequenas podem e devem derrubar contas que fogem ao perfil, sob pena de sanções regulatórias severas.