Celina Leão (PP) foi reeleita governadora do Distrito Federal, mas a manchete real das urnas não está no nome da vencedora. O comparecimento ao segundo turno atingiu o maior nível em duas décadas, derrubando a abstenção recorde do primeiro turno e alterando drasticamente o mapa dos votos brancos e nulos na disputa local. O que explica essa mobilização repentina?
O eleitorado apto bateu recorde histórico: 2.253.132 brasilienses poderiam votar. No entanto, a dinâmica entre a disputa pelo Buriti e a corrida presidencial revelou um comportamento esquizofrênico que intriga cientistas políticos e expõe a fragilidade das candidaturas locais diante da polarização nacional.
O efeito da polarização nas urnas locais
No primeiro turno, a abstenção assustou: 18,99% dos eleitores ficaram em casa. Três semanas depois, o cenário inverteu. Segundo o cientista político Leandro Gabiati, do Ibmec, a combinação da disputa presidencial acirrada com a definição do governo local em apenas dois nomes criou uma “clareza de consequências” que puxou o eleitor para a urna.
O resultado prático aparece nos números brutos. Tanto Celina Leão quanto Leandro Grass (PT) ampliaram suas votações em mais de 160 mil votos cada um, em comparação à etapa anterior. A redução de brancos e nulos para governador foi generalizada nas regiões administrativas, embora Santa Maria ainda registre os maiores percentuais de protesto (4,05% brancos e 4,37% nulos).
O paradoxo presidencial: mais nulos, mais Lula
Aqui a narrativa quebra a lógica esperada. Enquanto a abstenção e os votos em branco caíram na eleição para presidente — seguindo a tendência nacional —, os votos nulos no DF subiram de 1,81% para 2,20%.
Flávio Bolsonaro (PL) venceu no Distrito Federal com 54,28% dos votos válidos contra 45,72% de Lula. Porém, um recorte fino muda a leitura: o DF foi a terceira unidade da Federação onde Lula mais cresceu em pontos percentuais entre o primeiro e o segundo turno, com um salto de 7,61 pontos. Ficou atrás apenas de Goiás (9,28) e São Paulo (quase 8).
- Crescimento de Lula no DF (2º turno): +7,61 pontos percentuais
- Votação de Flávio Bolsonaro no DF: 54,28% dos válidos
- Abstenção no 2º turno: Menor nível em 20 anos
Por que a onda Lula não elegeu Grass?
Se o presidente ganhou quase 8 pontos de vantagem na capital federal, por que o candidato do PT ao governo, Leandro Grass, não colheu os frutos? Para Thiago Trindade, vice-diretor do Instituto de Ciências Políticas da UnB, a resposta era antecipada pelas próprias campanhas.
“O Leandro Grass é o cara que foi para o sacrifício”, resume Trindade, usando o jargão político. A função principal da candidatura seria garantir palanque e puxar votos para a chapa nacional, não necessariamente vencer a disputa local. A estratégia funcionou para o topo da chapa, mas não transferiu capital eleitoral para a base.
O eleitor que vota dividido
O perfil do eleitorado do DF é majoritariamente conservador, mas isso não impede o voto cruzado. “Não há problema na cabeça do eleitor em votar no Lula para presidente e no candidato do lado oposto para governador”, afirma Trindade.
A prova está na diferença entre as cédulas. Os índices de brancos e nulos permaneceram proporcionalmente maiores na disputa pelo governo do que na presidencial. Para Gabiati, isso sinaliza que a mobilização nacional não se traduziu em identificação com as opções locais. O eleitor compareceu, definiu o presidente, mas manteve a recusa ou a indecisão quanto ao Palácio do Buriti.
O que observar daqui para frente
A reeleição de Celina Leão consolida um grupo político forte no centro do poder, mas o avanço expressivo de Lula em território historicamente adverso acende um alerta para 2026. A capacidade de mobilização da máquina federal recém-eleita, somada à fragmentação da oposição local, pode redesenhar o mapa eleitoral da capital nos próximos ciclos. O segredo não foi quem ganhou, mas quem apareceu para votar — e em quem.
