A ONU confirmou nesta terça-feira (27) que as novas promessas climáticas dos países reduziriam as emissões globais em apenas 6% até 2035 — uma fração dos 60% exigidos pela ciência para manter o aquecimento em 1,5°C. O relatório chega às vésperas da COP31, em Antália, e expõe um abismo entre discursos e números reais.
Mesmo somando 127 metas nacionais atualizadas — cobrindo 71% das emissões de 2019 —, o mundo caminha para um aquecimento de até 3,2°C no fim do século. A conta não fecha.
O abismo entre o prometido e o necessário
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que limitar o aquecimento a 1,5°C exige queda de aproximadamente 60% nas emissões até 2035, partindo da base de 2019. Para ficar abaixo de 2°C, o corte precisaria ser de 37%.
O que está na mesa hoje entrega 6%.
Se todos os condicionantes — financiamento internacional, transferência de tecnologia, apoio a países em desenvolvimento — forem integralmente atendidos, a redução sobe para 9%. Sem eles, cai para 3%.
Orçamento de carbono: três anos de folga
O relatório traz um dado brutal: o “orçamento de carbono” restante para 1,5°C é de 130 bilhões de toneladas de CO₂ a partir de 2026. Ao ritmo atual, o mundo emitirá 368 bilhões de toneladas apenas na próxima década.
Quase três vezes o limite.
Isso significa que, sem remoção massiva de CO₂ da atmosfera no futuro, a ultrapassagem de 1,5°C deixa de ser risco para se tornar certeza matemática.
Sinais de movimento — mas no compasso errado
Há avanços nos compromissos formais:
- 99% dos países incluem medidas de redução setorial (energia, transporte, indústria, agricultura, resíduos)
- 92% contemplam metano em suas metas
- 90% tratam de uso da terra e florestas
- Modernização de redes elétricas subiu de 51% para 70%
- Armazenamento de energia saltou de 33% para 56%
Mas um segundo relatório, com 137 documentos, mostra que apenas 61 participantes avançaram concretamente; 27 regrediram ou apresentaram resultados mistos.
Adaptação avança, dinheiro não acompanha
86% das nações incluíram adaptação nas novas metas — foco em segurança alimentar, hídrica, saúde e prevenção de desastres. Menções a “perdas e danos” saltaram de 56% para 92%.
O gargalo é execução: 36 de 41 planos de adaptação de países vulneráveis estão em estágio inicial. E o financiamento global, embora tenha crescido 32% (média de US$ 1,9 tri/ano em 2023-24), direciona apenas 9% a transferências internacionais — US$ 183 bi/ano.
Recursos para adaptação caíram 20%, somando US$ 63 bi/ano (3% do total).
O que observar daqui para frente
A COP31 em novembro será o teste de força: se os países desenvolvidos não fecharem a lacuna de financiamento e as grandes economias não anteciparem cortes reais, a trajetória de 3°C se consolida. Para o setor privado, o sinal é claro — regulação de carbono, precificação de risco climático e exigências de cadeia de suprimento só vão endurecer. Quem antecipar a transição ganha tempo; quem esperar, paga a conta.
