Economia

Califórnia vota imposto inédito: bilionários vão mesmo pagar a conta?

Mapa da Califórnia com balança equilibrando sacos de dinheiro e símbolo de saúde, representando imposto sobre bilionários
Califórnia vota imposto de 5% sobre 200 bilionários para financiar saúde estadual

Eleitores da Califórnia decidem em novembro se criam o primeiro imposto global direcionado exclusivamente a bilionários. A Proposição 40 prevê alíquota de 5% sobre o patrimônio líquido de cerca de 200 contribuintes para arrecadar US$ 100 bilhões e evitar o colapso do sistema de saúde estadual. A medida já provocou uma debandada silenciosa de fortunas antes mesmo da votação.

O gatilho: saúde em troca de patrimônio

A proposta nasceu da urgência. Cortes federais no financiamento da saúde — impulsionados pelo pacote fiscal do governo Trump — deixaram um buraco bilionário no orçamento californiano. O sindicato dos trabalhadores da saúde (SEIU-UHW) lidera a campanha argumentando que, sem receita nova, hospitais e atendimentos básicos entram em colapso.

O imposto incidiria sobre o patrimônio líquido acima de US$ 1 bilhão, com aplicação retroativa a quem residisse no estado em 1º de janeiro de 2026. A meta é ambiciosa: US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 496 bilhões) para tampar o déficit imediato.

Êxodo antecipado: seis fortunas já fizeram as malas

A reação do alvo foi imediata. Pelo menos seis bilionários deixaram a Califórnia antes da data de corte para escapar da tributação. A lista inclui nomes pesados do Vale do Silício e das finanças:

  • Larry Page e Sergey Brin (cofundaçores do Google);
  • Peter Thiel (investidor de capital de risco);
  • Travis Kalanick (ex-CEO da Uber);
  • Don Hankey (fundador do Hankey Group, morador vitalício de LA);
  • Andy Fang (cofundador da DoorDash, chamou a medida de “estúpida” no X).

Hankey, que emprega milhares no estado, resumiu o sentimento ao Forbes: “Acho que criamos muitos empregos… e preciso deixar o estado. A medida me fez sentir que não era bem-vindo”.

O “efeito Zuckerberg”: retenção a peso de ouro

Mark Zuckerberg, da Meta, avaliou mudar a residência principal para fora da Califórnia. A conta potencial: até US$ 12,5 bilhões. Para mantê-lo — e a sede da empresa — no estado, a Meta negociou um novo pacote de remuneração em ações que compensa o executivo pela eventual mordida do imposto. É um sinal claro: o custo de retenção de talentos ultarricos acaba repassado ao próprio mercado.

O que a Europa ensinou (e a Califórnia ignora?)

Impostos sobre patrimônio não são novidade, mas são raros. Dos países europeus que adotaram, restam apenas três: Espanha, Noruega e Suíça. O histórico assusta:

  • Noruega: aumento da alíquota em 2022 provocou mais saídas de super-ricos em um ano do que nos 13 anteriores somados.
  • Suíça: estudo mostrou que alta de 0,1 ponto percentual reduziu a base tributável em 3,5%.

Para Kristian Niemietz, do Instituto de Assuntos Econômicos, o custo administrativo e a fuga de capitais tornam o instrumento “mais trabalho do que vale a pena”. O governador Gavin Newsom, liberal no fim do mandato, ecoa o alerta: a fuga de ricos seca a receita do imposto de renda, a verdadeira espinha dorsal do caixa estadual.

Racha entre os próprios bilionários

Não há consenso no topo. Jensen Huang (Nvidia) e Tom Steyer declararam voto a favor. “Não me importo de pagar impostos. Quanto mais você ganha, mais paga”, disse Huang à CBS. Steyer admite falhas na redação, mas vê a medida como necessária para proteger os mais vulneráveis.

Do outro lado, Sergey Brin doou mais de US$ 100 milhões a comitês para derrotar a proposta. Bernie Sanders fez campanha ativa a favor, atacando o “direito divino” dos bilionários de governar sem contestação.

Cenário aberto: pesquisa mostra empate técnico

Levantamento de setembro (Instituto de Estudos Governamentais de Berkeley / LA Times) revela eleitorado dividido:

  • 45% a favor;
  • 42% contra;
  • 13% indecisos.

A vitória exige maioria simples. O voto dos indecisos — e a participação efetiva nas urnas — definirá se o experimento vira lei ou precedente frustrado.

O que observar daqui para frente

Se aprovada, a implementação retroativa (janeiro de 2026) deve gerar batalhas jurídicas imediatas sobre constitucionalidade e valuation de ativos ilíquidos. Investidores devem monitorar dois vetores: a migração efetiva de *family offices* e sedes corporativas para Nevada, Texas ou Flórida, e a reação de Washington, onde um “imposto sobre milionários” (9,9% sobre renda acima de US$ 1 mi) também está na cédula. O teste californiano ditou o tom para a tributação da riqueza extrema nas próximas décadas — e o mercado já começou a se reposicionar antes do veredito.