O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a apreensão dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro (PL) e proibiu qualquer comunicação com o advogado Willer Tomaz. A medida cautelar expõe uma investigação da Polícia Federal que aponta para uma estrutura societária oculta no mercado de apostas online, movimentação de ativos em paraísos fiscais e uso de jatos executivos ligados a investigados por lavagem de dinheiro.
O cerco judicial não se limita ao parlamentar. Willer teve sigilos bancário, fiscal e cambiais quebrados, passaportes cancelados e atividades empresariais suspensas. A dúvida central que move o inquérito: até onde vai a sobreposição entre o mandato parlamentar, a advocacia privada e os negócios do advogado?
O fio condutor: uma holding na Ilha da Madeira
A PF identificou Flávio como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa de Willer registrada em Portugal. A Alcazar, segundo reportagens da piauí e da Folha, teria financiado a Cathedral Holdings, única acionista da Rede Loto — primeira bet a obter licença no Rio de Janeiro, operando como BestBet.
A licença saiu via Loterj, presidida por Hazenclever Cançado, nomeado pelo governador Cláudio Castro sob sugestão de Flávio. Cançado e Willer são ex-colegas de advocacia. A PF apura se o senador é sócio oculto da operação.
Jatos executivos e a rota de fuga para Dubai
Investigações mostram viagens conjuntas em jatos executivos para EUA, Europa e África a partir de janeiro de 2025. O trecho Fort Lauderdale–Brasília foi feito em um Legacy 650 (prefixo PP-NLR), da Fraction 024, controlada pela Prime You, de Daniel Vorcaro (Banco Master).
A mesma aeronave, segundo a PF, seria usada em uma tentativa de fuga para Dubai. Willer alega ter custeado o voo com horas de sua cota pessoal e que os passageiros eram seus convidados.
A mansão em Angra dos Reis e a disputa com Richarlison
Desde 2020, Flávio frequenta uma ilha no litoral fluminense cujos direitos de posse foram cedidos, em 2022, a uma gestora de ativos de Willer. O imóvel, avaliado em R$ 10 milhões, é alvo de briga judicial com o jogador Richarlison, que afirma ter comprado a propriedade em 2020.
- Maio de 2022: liminar confirma posse para Willer.
- Vizinhos e o atleta: sustentam que Flávio é quem mais usa o local.
- Defesa de Willer: afirma ter pago R$ 5 milhões em regularização fiscal e classifica antigos ocupantes como invasores.
Richarlison pediu à PF que investigue a atuação do senador na disputa, alegando tomada “na mão grande”. Flávio nega irregularidades.
Endereços cruzados e o “Careca do INSS”
Em Águas Claras (DF), a Bravo Grafeno — empresa de capacetes de grafeno dos Bolsonaro — divide sala comercial com a RPLD, construtora de Antônio Carlos Camilo, o “Careca do INSS”, investigado na mesma operação de lavagem de dinheiro.
A conexão aprofunda-se no escritório de advocacia de Flávio, sediado em sua casa de R$ 6 milhões (quitada com R$ 3,4 milhões à vista ao BRB). A irmã do sócio majoritário do “Careca” é diretora estatutária do escritório. Entre janeiro de 2023 e meados de 2024, a banca emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais, metade para outros advogados. Flávio classifica as suspeitas como tentativa de criminalizar a advocacia.
Atuação paralela em disputa societária bilionária
Durante a campanha de 2022, Flávio assumiu a defesa de Mário Gadelha Simas Filho, dono da Simas Industrial (balas e pirulitos), em briga societária. Willer já atuava no caso, mas foi Flávio quem passou a assinar as peças processuais. A sobreposição de clientela reforça a tese da PF de simbiose entre as atividades de ambos.
O que observar daqui para frente
O desenlace depende de três frentes: a quebra de sigilo da Alcazar Holdings pode revelar fluxos financeiros entre a holding portuguesa e a estrutura da BestBet; a análise dos voos em jatos do ecossistema Banco Master testa a versão de “caronas entre amigos”; e a disputa pela ilha em Angra serve como proxy para medir a influência política sobre decisões judiciais e cartoriais. Para investidores do setor de apostas, o caso sinaliza que o licenciamento estadual — via Loterj — segue sob lupa rigorosa, com risco de revisão de outorgas já concedidas.
