Celina Leão (PP) confirmou a reeleição ao governo do Distrito Federal com 57,18% dos votos válidos, mas o placar final esconde uma fratura geográfica que nenhum empresário ou investidor pode ignorar. A vitória expressiva mascara um eleitorado rachado ao meio no coração administrativo do país. Entender essa divisão é o primeiro passo para antecipar os rumos da gestão pública e da relação com o setor produtivo nos próximos quatro anos.
O Plano Piloto disse “não”: a resistência que não some
Enquanto a governadora varreu 17 das 19 zonas eleitorais, Asa Norte e Asa Sul — bairros de maior renda e concentração de servidores federais — mantiveram a preferência por Leandro Grass (PT). Na Asa Norte, a diferença foi de mais de 8 pontos percentuais (54,03% a 45,97%). Na Asa Sul, a disputa foi voto a voto: 50,07% contra 49,93%.
Esse não é um detalhe estatístico. É o sinal de que a base funcional do Estado, formadora de opinião e guardiã da burocracia federal, permanece cética em relação ao projeto vitorioso. Para quem depende de licenças, regulações ou diálogo com a máquina pública, a resistência no centro administrativo pode se traduzir em ritmos mais lentos de negociação.
O poder da periferia: onde a eleição foi decidida de verdade
A virada de chave aconteceu nas zonas de maior densidade populacional. Ceilândia, sozinha, concentra três zonas eleitorais (8ª, 16ª e 20ª) e mais de 432 mil eleitores. Em todas, Celina superou a barreira dos 58% dos votos válidos, chegando a 60,40% na Ceilândia Norte.
Outros redutos decisivos confirmam o padrão:
- Samambaia (Zona 13): 61,78% para a reeleita — maior percentual entre as zonas populosas.
- Taguatinga Sul e Águas Claras (Zona 15): maior colégio eleitoral do DF, com 76 mil votos para Celina (57,54%).
- Recanto das Emas (Zona 21): 60,70% de aprovação.
O recado é claro: a gestão conquistou a confiança nas regiões que mais demandam infraestrutura, saúde e transporte. O desafio agora é entregar resultados proporcionais a esse capital político.
Abstenção e votos nulos: o termômetro do desencanto
Mesmo com comparecimento maior que no primeiro turno, os números de rejeição ao sistema chamam a atenção. Santa Maria (Zona 4) liderou o percentual de votos nulos (4,37%) e brancos (4,05%) — um sinal de insatisfação difusa que não encontrou canal nas urnas.
Já a Zona 15 (Águas Claras/Taguatinga Sul) registrou a maior abstenção em números absolutos: 27.368 eleitores deixaram de votar. Em percentual, Sobradinho (Zona 5) liderou com 17,16%. Esses bolsões de apatia representam riscos futuros: se a entrega de serviços não acompanhar a expectativa gerada, a base eleitoral de 2022 pode se tornar o abstencionista de 2026.
O que observar daqui para frente
A governadora assume com maioria confortável, mas herdará uma Câmara Legislativa fragmentada e uma bancada federal onde a oposição tem peso específico no Plano Piloto. A capacidade de articular emendas impositivas, aprovar reformas tributárias locais e gerir o fundo constitucional dependerá de pontes que ainda não estão construídas.
Para o setor privado, o monitoramento deve focar em três eixos: a execução orçamentária nas regiões que deram a vitória (Ceilândia, Samambaia, Taguatinga), a nomeação de cargos técnicos nas pastas de Economia e Desenvolvimento Urbano, e o tom do relacionamento com o Palácio do Buriti nas pautas de desburocratização. O mapa das urnas já foi desenhado; o mapa da gestão começa a ser traçado agora.
