Economia

Brasil cai 34 posições no ranking industrial mundial: o que está por trás do tombo

Gráfico mostra queda do Brasil da 28ª para 62ª posição no ranking industrial mundial em dois anos
Brasil despenca 34 posições no ranking global de crescimento industrial entre 2022 e 2024

A indústria de transformação brasileira despencou do 28º para o 62º lugar no ranking global de crescimento em apenas dois anos. O abismo entre o desempenho nacional e o ritmo do resto do mundo expõe uma fragilidade que vai muito além da taxa de juros. A pergunta que fica: o país conseguirá reverter essa trajetória antes que o dano se torne estrutural?

Enquanto a manufatura mundial avançou 7,6% no segundo trimestre frente ao mesmo período de 2024, a produção brasileira rastejou 0,84%. O dado, compilado pelo Iedi a partir de estatísticas da Unido (agência da ONU para desenvolvimento industrial), revela um descompasso de quase nove vezes.

O peso dos juros na engrenagem produtiva

A escalada da Selic — de 10,50% em setembro de 2024 para 15% em junho de 2025, patamar mantido até o início deste ano — funcionou como freio duplo. De um lado, encareceu o crédito para investimento em máquinas e expansão de plantas. Do outro, reduziu a demanda por bens duráveis, justamente os mais sensíveis ao custo do financiamento.

Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi, resume: a indústria produz bens de longa duração cuja compra depende de parcelamento, e sua expansão exige capital de giro e financiamento de longo prazo. Quando a taxa básica sobe, ambos os vetores travam.

O alívio recente — a Selic caiu para 13,75% em março e segue em trajetória descendente — ajudou o país a sair do fundo do poço (chegou ao 75º lugar no fim de 2025). Mas a recuperação ainda é anêmica: alta de 0,5% no segundo trimestre contra 3,7% da média global.

Os setores que sangram mais

Dois segmentos concentram o impacto mais severo:

  • Bens de capital (máquinas e equipamentos): queda acumulada de 5,3% no ano até agosto, após recuo de 1,7% em 2025 inteiro. Em 2024, haviam crescido 9%.
  • Bens de consumo duráveis: alta de apenas 2,1% no acumulado até agosto, contra 10,7% no ano anterior.

A lógica é simples: para investir em máquinas, o retorno esperado precisa superar a aplicação em títulos públicos. Com a Selic elevada, o custo de oportunidade torna o investimento produtivo pouco atrativo. No consumo durável, o financiamento caro afasta compradores de veículos, eletrodomésticos e móveis.

O “custo Brasil” que não some

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, aponta que os juros são apenas a ponta do iceberg. A indústria nacional carrega um pacote de desvantagens estruturais:

  • Custo trabalhista elevado e complexidade tributária
  • Energia historicamente cara
  • Burocracia e insegurança jurídica
  • Economia relativamente fechada, fora das grandes cadeias globais de valor

Vale destaca que a competitividade brasileira concentrou-se em commodities. A manufatura ligada a esses setores até ganhou espaço, mas enfrenta agora a concorrência crescente de produtos industriais chineses na pauta de importações.

O vento de popa que o Brasil não pegou

Há um fator externo que amplifica a queda no ranking: a resiliência da indústria mundial. Mesmo com guerras, rupturas de cadeias e inflação persistente, setores de alta intensidade tecnológica puxaram o crescimento global.

No trimestre, computadores e eletrônicos avançaram 3,4%; outros equipamentos de transporte, 3,8%. Desde a pandemia, essas atividades crescem praticamente o dobro da média industrial geral.

O problema: esses segmentos dinâmicos — digitalização, eletrificação, transporte avançado — são sub-representados na estrutura produtiva brasileira. O país fica fora do ciclo virtuoso que impulsiona as economias líderes.

O que observar nos próximos meses

O cenário permanece restritivo. A queda dos juros é lenta e seus efeitos na atividade real demoram a aparecer. Endividamento elevado de famílias e empresas, somado à incerteza do ciclo eleitoral, mantém o freio de mão puxado nos setores que dependem de confiança para investir — especialmente bens de capital e duráveis.

O mercado interno, sustentado por emprego e renda razoáveis, evita uma queda mais profunda. Mas não gera impulso para um novo ciclo expansivo. Nas palavras de Cagnin: “A indústria reage, mas o suficiente apenas para estancar a queda.”

Para 2027, a projeção é de nova desaceleração. A virada dependerá da estratégia econômica do próximo governo e da velocidade de redução da Selic. Do lado da oferta, o caminho apontado por analistas passa por acordos comerciais mais ambiciosos — como o em negociação com a União Europeia — e pela redução efetiva dos custos estruturais de produção.

Enquanto isso, o abismo entre o potencial industrial brasileiro e sua posição real no ranking global segue aberto. Acompanhar a evolução do investimento em bens de capital nos próximos trimestres será o termômetro mais fiel para saber se o país começa a fechar essa lacuna ou se consolida na margem da manufatura mundial.