Uma investigação de seis anos revelou os bastidores das negociações que colocaram o governo federal em rota de colisão com a CPI da Covid. No centro do esquema, um passeio de lancha, um relógio de luxo e contratos que fariam o Brasil pagar quatro vezes o valor de mercado por imunizantes.
O que parecia um encontro informal entre empresários e o senador Flávio Bolsonaro, em julho de 2021, escondia a engrenagem que tentava emplacar a Covaxin no Programa Nacional de Imunização. A história, contudo, não para no lago Paranoá.
O dia em que a lancha partiu com três garotas e um Rolex
Em 17 de julho de 2021, o Brasil registrava uma morte por minuto. Enquanto o país enterrava seus mortos, Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano — diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos — navegavam pelo lago Paranoá ao lado do filho do então presidente.
Os dois se apresentavam como representantes da Bharat Biotech, laboratório indiano por trás da Covaxin. Para “enfeitar” o encontro, levaram três acompanhantes e presentearam o parlamentar com um Rolex dourado.
O passeio não gerou contrato imediato. O governo só demonstrou interesse pela vacina da Precisa em janeiro do ano seguinte, quando a Bharat Biotech voltou ao radar oficial.
O consórcio que custava US$ 23,79 por dose
Foi então que a operação ganhou novo formato e novos personagens. O senador reaparece ao lado de Paulo Skaf, na época presidente da Fiesp. A proposta: 33 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, financiadas por 12 grandes empresas.
A divisão era simples: metade para funcionários dos patrocinadores, metade para o SUS. O problema? Cada dose sairia a US$ 23,79 — quase quatro vezes os US$ 5,25 praticados no mercado internacional.
O que chamou a atenção dos investigadores:
- Nove das 12 empresas deixaram o consórcio logo após o anúncio público
- O sobrepreço não tinha justificativa técnica ou logística
- Foi a única compra de vacinas prontamente apoiada por Jair Bolsonaro
Com 226 mil mortos no país, a transação morreu no nascedouro. Havia, nas palavras da época, “gato naquela tuba”.
O outro lado da moeda: festas, celulares proibidos e a PF no encalço
Enquanto a CPI escavava o caso Covaxin, outro esquema vinha à tona. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro viu suas festas virarem alvo da Polícia Federal. O detalhe que selou o destino dos eventos: convidados não podiam entrar com celulares.
A defesa de Vorcaro classificou a cobertura como “sensacionalismo”. O próprio empresário, contudo, admitiu em entrevista: “Esse é meu business” — referindo-se ao uso de “encanto feminino para amolecer poderosos corações”.
Os nomes dos responsáveis pelo recrutamento das convidadas já são conhecidos dos investigadores. O pedido de investigação ao Supremo Tribunal Federal está protocolado.
Por que o tema não deve esfriar após as eleições
Analistas jurídicos ouvidos pela reportagem apontam que a blindagem política tende a ruir com o fim do calendário eleitoral. A PF já mapeou:
- Fluxo financeiro entre Precisa, intermediários e agentes públicos
- Padrão de atuação de lobistas em diferentes ministérios
- Conexões entre o caso das vacinas e o esquema de eventos privados
O relatório final da CPI da Covid, entregue em outubro de 2021, pediu o indiciamento de 78 pessoas — incluindo o ex-presidente. Até hoje, poucos processos avançaram nas instâncias superiores.
O que observar nos próximos meses
Três frentes merecem atenção de quem acompanha o cenário institucional e de risco regulatório:
- STF e PGR: decisões sobre arquivamento ou prosseguimento dos inquéritos derivados da CPI
- TCU: julgamento das contas da gestão na compra de imunizantes — pode gerar inelegibilidades e ressarcimentos
- PF: conclusão do inquérito sobre as festas de Vorcaro e eventuais conexões com o esquema de vacinas
Para investidores e gestores de compliance, o recado é claro: o passivo reputacional e jurídico desses episódios ainda não foi precificado. O relógio — Rolex ou não — continua correndo.
