O segundo turno das eleições presidenciais em Santa Catarina terminou com a apuração suspensa e a maioria das seções encerradas no horário habitual, apesar de uma decisão do STF estender a votação até as 19h. O desencontro de informações gerou confusão nos colégios eleitorais e incerteza sobre o cronograma de totalização dos votos.
Mais de 5,7 milhões de catarinenses estavam aptos a votar. O que deveria ser um domingo de rotina democrática virou um teste de estresse para a logística eleitoral e para a comunicação entre tribunais.
O que aconteceu nas últimas horas de votação
Às 17h, horário legal de encerramento, presidentes de mesa das quase 17,4 mil seções do estado foram autorizados a fechar as urnas. Minutos depois, o ministro Cristiano Zanin, do STF, atendeu a pedido da coligação do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e determinou a prorrogação até as 19h em todo o país.
A ordem, porém, veio com uma ressalva técnica: valia apenas para locais onde ainda havia eleitores na fila às 17h. O TRE-SC informou que, até aquele momento, não havia recebido comunicação oficial da mudança. Resultado: a grande maioria das seções já estava fechada quando a decisão chegou.
Em Florianópolis, o advogado Sandro Sonza encontrou os portões do Instituto Estadual de Educação fechados às 17h05. “Fico decepcionado, porque a gente fez um esforço para tentar chegar a tempo e acabou não dando”, relatou.
Apuração parada e números parciais
O TSE pausou a totalização dos votos às 17h06, quando apenas 1.225 seções em todo o Brasil tinham resultados apurados para presidente. Não há previsão oficial para a retomada da contagem enquanto houver seções ainda em funcionamento.
Para o mercado e analistas políticos, a interrupção alonga o período de incerteza. Cenários de projeção dependem de dados consolidados, e a demora pode amplificar ruídos em ativos sensíveis ao resultado eleitoral.
O cenário de ocorrências no estado
A Polícia Militar registrou 92 ocorrências em 31 municípios até as 17h30. A distribuição mostra concentração nos maiores colégios eleitorais:
- Blumenau e Joinville: 11 ocorrências cada
- Florianópolis: 10
- Chapecó: 9
- Criciúma: 8
Os tipos mais frequentes: boca de urna e arregimentação de eleitores (29), propaganda irregular (12) e uso de equipamentos de som, comícios e carreatas (7). Do total, 45 não exigiram procedimentos policiais e 28 geraram boletins de ocorrência.
Infraestrutura e imprevistos logísticos
O TRE-SC contabilizou 88 ocorrências envolvendo urnas eletrônicas, com 46 substituições. Dez interrupções de energia foram registradas em oito zonas eleitorais; nove já haviam sido resolvidas até o meio da tarde. As urnas possuem bateria própria, o que evitou paralisações.
Em Águas de Chapecó, no Oeste do estado, seis eleitores ilhados precisaram ser resgatados de bote pelos bombeiros e transportados até a seção pela Defesa Civil municipal. A operação foi concluída sem atrasos para a votação.
Sigilo do voto e fiscalização
Em São Francisco do Sul, um homem de 24 anos foi detido suspeito de fotografar a urna durante a votação. Ele alegou não ter sido orientado a deixar o celular sobre a mesa antes de entrar na cabine. O caso será encaminhado a audiência de transação penal.
Na manhã de domingo, a PM já havia registrado cinco casos de boca de urna, dois de tentativa de filmar o voto e um de desordem eleitoral em cidades como Brusque, Biguaçu, Camboriú, Cocal do Sul, Palhoça e São Francisco do Sul.
O peso do eleitorado catarinense
No primeiro turno, Santa Catarina deu vantagem expressiva a Flávio Bolsonaro (PL): 3.000.020 votos (66,65%) contra 1.127.168 de Lula (PT) (25,04%). O estado tem histórico de votação alinhada ao campo conservador, o que torna sua apuração relevante para confirmar ou alterar tendências nacionais.
O presidente do TRE-SC, desembargador Carlos Roberto da Silva, fez apelo aos 1.084.991 eleitores que não votaram no primeiro turno: “A democracia sentiu a sua falta”. Esses eleitores estavam liberados para votar normalmente no segundo turno.
O que observar daqui para frente
A retomada da apuração depende do encerramento das eventuais seções que permaneceram abertas até as 19h. Como a maior parte fechou às 17h, a expectativa é de que a totalização seja reativada ainda na noite de domingo, mas sem horário confirmado.
Para quem acompanha os desdobramentos institucionais e de mercado, três pontos merecem atenção nas próximas horas: a velocidade de divulgação dos boletins de urna após a reativação do sistema do TSE, eventuais questionamentos judiciais sobre seções que não reabriram, e a taxa de abstenção final — que, somada aos votos em branco e nulos, define a legitimidade numérica do resultado.
O desencontro entre a decisão do STF e a execução prática nos estados pode motivar debates sobre a padronização de procedimentos de emergência no processo eleitoral. Esse é um tema que deve retornar à pauta do Congresso e do próprio TSE no próximo ciclo legislativo.
