Justiça

O esquema das vacinas que custou 4x o preço e o Rolex no lago Paranoá

Empresários da Precisa Medicamentos e senador Flávio Bolsonaro em lancha no lago Paranoá com Rolex dourado
Investigação revela encontro suspeito durante negociações de vacinas superfaturadas na pandemia.

Uma investigação de seis anos expôs como interesses privados operaram dentro do governo federal durante a pior crise sanitária do século. O custo: vidas perdidas e dinheiro público desperdiçado em negociações que desafiavam a lógica de mercado.

Em julho de 2021, o Brasil registrava uma morte por minuto. Nesse mesmo cenário, donos da Precisa Medicamentos navegaram pelo lago Paranoá com o senador Flávio Bolsonaro, acompanhados por três garotas de programa e um Rolex dourado de presente. A promessa: fechar contrato para a vacina Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech.

O passeio que não virou contrato — de imediato

O acordo não saiu naquele mês. O governo só demonstrou interesse real em janeiro seguinte, quando a Bharat Biotech voltou ao radar oficial. A demora expõe um padrão: negociações paralelas, sem transparência, enquanto a fila de espera por imunizantes crescia nas secretarias de saúde.

Foi então que surgiram novos atores. O senador Flávio Bolsonaro reaparece nas articulações, agora ao lado de Paulo Skaf, então presidente da Fiesp. O formato mudou: 33 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, bancadas por um consórcio de 12 grandes empresas.

A conta que não fechava

A proposta previa divisão igual: metade das doses para funcionários das patrocinadoras, metade para o SUS. Mas o preço unitário assustou até os próprios parceiros.

  • Preço proposto: US$ 23,79 por dose
  • Referência de mercado: US$ 5,25
  • Diferença: 353% acima do valor praticado internacionalmente

Nove das 12 empresas abandonaram o consórcio logo após o anúncio. A operação tornou-se a única compra de vacinas prontamente endossada pelo então presidente Jair Bolsonaro — e morreu antes de nascer, sob suspeita de sobrepreço inexplicável. Naquele momento, o país somava 226 mil mortos.

O método Vorcaro: acesso, influência e festas sem celular

Paralelamente, outro eixo de poder operava na surdina. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro organizava eventos onde a entrada de celulares era proibida. A Polícia Federal pediu ao STF a investigação do caso, e a defesa classifica a cobertura como “sensacionalismo”.

O próprio Vorcaro admitiu, em declarações públicas, que utilizava “o encanto feminino para amolecer poderosos corações” e definiu: “Esse é meu business”. A estratégia misturava networking, lazer e acesso a decisores — um modelo de lobby informal que dispensa registro e transparência.

O que isso ensina sobre risco político e governança

Para executivos e investidores, o episódio reforça três lições práticas:

  • Contratos públicos sem concorrência e com preços fora de parâmetros de mercado sinalizam fragilidade de compliance
  • Relacionamentos informais entre empresários e familiares de autoridades criam passivos reputacionais e jurídicos difíceis de mensurar
  • A ausência de rastreabilidade em encontros privados (sem celulares, sem atas) é indicador de risco de captura regulatória

O que observar daqui para frente

O inquérito no STF sobre as festas de Vorcaro pode revelar nomes de participantes e eventuais contrapartidas em decisões de governo. Já a investigação jornalística da piauí — baseada em documentos e depoimentos — deve alimentar processos no TCU e no Ministério Público. Empresas que participaram do consórcio abortado ou mantiveram relações com a Precisa Medicamentos precisam revisar seus controles de due diligence e exposure a risco político. O custo da opacidade, medido em vidas e recursos, continua sendo cobrado.