Bancos de investimento projetam US$ 2,1 trilhões em data centers até 2028, mas a maioria das empresas ainda não sabe mensurar o retorno real da inteligência artificial. Para a líder de transformação financeira da Deloitte Brasil, é exatamente essa cegueira que alimenta o medo de bolha — e quem decifrar a métrica certa pode capturar valor antes dos concorrentes.
A conta é assustadora: R$ 10,44 trilhões em infraestrutura apenas nos próximos quatro anos, segundo o BofA Global Research. Enquanto as ações das big techs disparam na Bolsa americana, gestores e conselhos de administração perdem o sono com a mesma pergunta: onde está o lucro?
O diagnóstico que muda o jogo
Caroline Yokomizo, sócia da Deloitte Brasil e responsável pelo programa de CFOs da consultoria, aponta para um vazio metodológico. Não falta tecnologia nem capital — falta régua. As companhias compram GPUs, contratam cientistas de dados e migram para nuvem, mas seguem avaliando resultados com métricas de TI tradicional.
Quando a medição amadurecer, a narrativa inverte. Estudos do mercado americano indicam que, já no primeiro semestre do próximo ano, deve surgir uma captura de benefícios mais clara e governada. No Brasil, o estágio ainda é embrionário: fala-se muito em custo, pouco em ativo.
Reduzir custo é armadilha; mudar o modelo é oportunidade
Pensar em IA apenas como cortadora de despesas leva a decisões míopes. A tecnologia reconfigura como o consumidor compra, como a cadeia de suprimentos reage e como o risco geopolítico se traduz em balanço.
- Predição de cenários: simular o impacto de um conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo e, consequentemente, sobre a margem de uma indústria dependente de commodities dolarizadas.
- Planejamento dinâmico: substituir planilhas estáticas no Excel por modelos que recalculam necessidade de mão de obra, estoque e capacidade produtiva em tempo real.
- Novas receitas: transformar dados proprietários em produtos ou serviços que não existiam antes.
Essas frentes ainda são pouco exploradas porque exigem uma mudança de mentalidade: de “quanto gasto vs. quanto economizo” para “que valor novo gero”.
O novo ouro e o preço de guardá-lo em casa
Dados transacionais — fórmulas, base de clientes, histórico de fornecedores — tornaram-se ativos estratégicos. A consequência prática: empresas recusam nuvens públicas baratas para manter a soberania da informação em infraestrutura própria, mesmo que isso encareça o projeto.
Esse movimento pressiona o CAPEX de TI e reforça a sensação de “conta alta sem retorno visível”. Mas, na visão de Yokomizo, é um passo racional: quem controla o dado controla a futura geração de valor da IA.
O que observar daqui para frente
Três sinais indicam que a medição está amadurecendo e a bolha — se existir — começa a esvaziar por fundamentos:
- Divulgação de KPIs de IA nos relatórios trimestrais das grandes corporações americanas (já previsto para o 1º semestre de 2025).
- Criação de áreas dedicadas a “valor de IA” reportando direto ao CFO, não ao CIO.
- Migração de pilotos para escala em processos centrais (precificação, supply chain, gestão de risco cambial).
Para o investidor e o gestor brasileiro, a lição é prática: pare de perguntar “quanto custa?” e comece a modelar “quanto vale se eu acertar a métrica antes do concorrente?”. A janela para capturar o diferencial ainda está aberta — mas não por muito tempo.
