Uma pesquisa global revela um abismo surpreendente: enquanto americanos e europeus veem a inteligência artificial como ameaça, nações em desenvolvimento a enxergam como salvação. Os números explicam muito do que está por vir.
Dois terços dos sul-coreanos acreditam que a IA trará benefícios. Na Nigéria e no Vietnã, esse índice salta para quase 90%. O estudo da GlobeScan para a The Economist, feito em 34 países, expõe uma fratura geopolítica que passa despercebida nos debates de Davos.
O otimismo que nasce da necessidade
Bae Oh-do, 70 anos, vendedor de violinos em Seul, resume o sentimento: “A humanidade avançou muito. Não há como saber de que maneira o mundo vai mudar, mas a tecnologia é boa”. Ele viu a Coreia do Sul sair da lenha e da bomba de pedal para smartphones em uma vida só.
Esse histórico de transformação radical explica parte do otimismo. Singapura, Taiwan e Coreia do Sul passaram de pobres a potências adotando tecnologia estrangeira em tempo recorde. A IA é apenas o próximo degrau.
Quem tem menos a perder, aposta mais
A lógica econômica é brutal: no Ocidente, a IA ameaça empregos estáveis de escritório. No Sul Global, o trabalho já é informal e precário. Perder um “bico” para algoritmo dói menos que perder carreira de 20 anos em corporação.
Dados da Microsoft no 2º trimestre de 2026 mostram:
- 19% dos indianos em idade ativa usaram IA generativa
- 33% dos americanos fizeram o mesmo
- Na África, 1 em cada 10 trabalhadores já testou ferramentas como DeepSeek
Mas o uso não explica tudo. No Quênia, apenas 9% usaram IA — yet 85% acreditam que melhorará suas vidas. A fé precede a experiência.
O privilégio do pessimismo
“O pessimismo é luxo de quem pode se dar ao luxo de perder a esperança”, diz Payal Arora, autora de From Pessimism to Promise. Nos EUA, Canadá e França, a visão negativa supera a positiva. A Gallup confirmou o padrão em 37 países.
Por quê? Ocidentais viram redes sociais prometerem conexão e entregarem polarização. Gigantes de tecnologia escaparam de regulação por décadas. A desconfiança é aprendida.
Demografia dita o ritmo
Leste asiático envelhece rápido. Taxas de fecundidade baixas criam escassez de mão de obra que a IA promete preencher. Robôs cuidando de idosos não são ficção científica em Tóquio ou Seul — são planejamento orçamentário.
Singapura lidera adoção global segundo a Microsoft. Malásia expande data centers sem protestos relevantes. A China trata IA com entusiasmo estatal, apesar de preocupações reais com segurança cibernética.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis mudam o jogo nos próximos 18 meses: regulação ocidental efetiva (ou falta dela), queda no custo de inferência que democratiza acesso, e o primeiro grande incidente de viés algorítmico em país do Sul Global. Quem apostar na adaptação prática — não no alarmismo nem na euforia — levará vantagem.
