Cultura

O segredo que transforma sobras de drinks em pratos de chef no litoral de SP

Chef Victoria Diene na Urbana Coquetelaria em Santos transforma resíduos de drinks clarificados em pratos autorais
Na Urbana Coquetelaria, sobras de coquetéis viram matéria-prima nobre no menu da chef Victoria Diene.

Uma cheesecake nasce do que sobra no coador de um coquetel. Um molho de pernil carrega a alma de um gin clarificado. No Urbana Coquetelaria, em Santos, o lixo virou matéria-prima nobre — e a conta fecha no azul.

A chef Victoria Diene comanda a casa há dois anos. O cardápio não separa bar de cozinha: cada drink tem um “par” gastronômico que reaproveita seus resíduos. O resultado aparece no bolso e no prato.

Como a clarificação virou motor de cardápio

A técnica central é a clarificação por leite. Mistura-se o coquetel ao lácteo, aguarda a coagulação e coa. O líquido limpo volta para a taça; o sólido retido no filtro vira base de sobremesa ou molho.

O processo exige controle de temperatura, tempo e acidez. Errar a mão significa perder textura ou, pior, comprometer a segurança alimentar. Victoria testa cada receita por semanas antes de aprovar.

Duas combinações que explicam o modelo

  • Panis et Circenses (R$ 30) + Brasileirinha (R$ 42): Drink sem álcool com suco de mastruz e cordial de manga. O resíduo da clarificação vira cheesecake de iogurte de mastruz com manga; cascas da fruta torradas imitam nibs de cacau no crumble.
  • Piratininga (R$ 42) + Pesca e Carreto (R$ 55): Gin, vermute seco, leite de tigre e solução salina. O material coagulado tempera o molho do pernil no sanduíche de pão de cará, maionese da casa e camarão no dendê.

O custo oculto do desperdício zero

Victoria aponta um gargalo: mão de obra qualificada. “O setor não valoriza a formação técnica. Muitos lugares não dão suporte para o time desenvolver essas técnicas”, afirma. A clarificação exige conhecimento de química de alimentos, microbiologia e gestão de tempo de validade.

Outro entrave é a crença de que “sobra não presta”. A chef contrapõe: “Muita gente não sabe que é possível utilizar 100% do produto. Falta popularizar esse pensamento e dar base para desenvolver as técnicas”.

O que observar daqui para frente

Bares que adotarem o modelo precisam de três pilares: equipe treinada em segurança de alimentos, fichas técnicas que prevejam o destino de cada subproduto e comunicação clara ao cliente — o valor percebido sobe quando ele entende a circularidade do prato. Em Santos, a experiência já prova: desperdício zero pode ser sinônimo de margem maior, não de custo extra.