O advogado Willer Tomaz, alvo de dois inquéritos da Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro, ergue uma mansão de três pavimentos com heliponto às margens do Lago Paranoá, em Brasília. A obra, orçada em dezenas de milhões, é a peça mais visível de um portfólio imobiliário que soma R$ 62 milhões em aquisições recentes. Mas a origem dos recursos e a velocidade das compras colocam o patrimônio sob lupa dos investigadores.
A mansão que chama atenção no Lago Sul
O terreno de 764 m² foi adquirido em março de 2024 por R$ 12,5 milhões via WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado. O imóvel anterior, que pertencia ao advogado Rogério Resende e já abrigou o ex-presidente da Caixa Pedro Guimarães, foi totalmente demolido — inclusive o subsolo — para dar lugar ao novo projeto.
Vizinhos relatam que Willer mencionou um investimento de R$ 25 milhões na construção com expectativa de revenda por R$ 50 milhões. Já prestadores de serviço indicam que a casa servirá de moradia. A previsão inicial de entrega para 2024 atrasou, e o canteiro de obras mobiliza dezenas de profissionais de arquitetura, marmoraria, automação e paisagismo.
Um ano depois da primeira compra, a WT adquiriu a propriedade ao lado por R$ 6,1 milhões — parte financiada pelo BRB. O imóvel, de 494 m², aparenta estar desocupado e sem obras, funcionando possivelmente como extensão do terreno principal.
O rastro de R$ 62 milhões em aquisições
Levantamento de escrituras públicas revela que, entre 2021 e 2024, Willer ou sua empresa compraram ao menos 15 imóveis no Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo. O volume chama a atenção pela concentração temporal e pelo valor agregado, especialmente para um profissional que atua majoritariamente na advocacia criminal e administrativa.
- Total investido: R$ 62 milhões;
- Período: 2021 a 2024;
- Principais locais: Lago Sul (DF), Planaltina (DF), São Paulo e Rio de Janeiro;
- Veículo: Majoritariamente via WT Administração de Imóveis e Bens.
Entre os ativos rurais destaca-se o Rancho Tomaz, em Planaltina, cenário de encontros frequentes com figuras do alto escalão político.
As duas frentes de investigação da PF
O advogado é investigado em dois inquéritos distintos. Um apura desvios em benefícios do INSS; o outro mira esquemas envolvendo casas de aposta. Neste último, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também figura como investigado.
A proximidade entre os dois é antiga: já defenderam interesses mútuos no Senado, realizaram viagens internacionais em jatinhos particulares e há suspeita de sociedade em negócios sob escrutínio. A relação extrapola o âmbito profissional e chega à estrutura patrimonial ora examinada.
A teia política: de Weverton a Arthur Lira
Uma foto obtida pela revista piauí na jacuzzi do Rancho Tomaz ilustra o círculo de influência do advogado. Na imagem aparecem o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), os deputados Elmar Nascimento e Paulo Azi (ambos União Brasil-BA), o senador Weverton Rocha (PDT-MA), o ex-ministro Juscelino Filho (União Brasil-MA) e o ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ).
O senador Weverton é peça-chave no inquérito do INSS. Ele residiu por anos em uma casa de R$ 6 milhões no Lago Sul cuja escritura está em nome da WT Administração. A PF sustenta que o parlamentar participou das tratativas de compra, mas a formalização ocorreu via empresa de Willer, ocultando o real beneficiário. Weverton deixou o imóvel no primeiro semestre de 2024.
Outro elo é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que alugou uma residência comprada por Willer em 2021. O contrato foi firmado por meio de uma empresa do parlamentar no Piauí.
Negócios ou moradia? O mistério do investimento
A dualidade de narrativas — especulação imobiliária versus moradia de alto padrão — alimenta as suspeitas de que os imóveis funcionam como veículos de lavagem de ativos. A demolição completa de uma casa reformada para abrir uma cratera no terreno nobre, somada à compra imediata do lote vizinho, sugere planejamento patrimonial agressivo.
O financiamento de parte da segunda aquisição junto ao BRB, banco público do Distrito Federal, adiciona uma camada de complexidade institucional que deve ser examinada pelos órgãos de controle.
O que observar daqui para frente
Três vetores devem ditar os próximos capítulos: o avanço das quebras de sigilo bancário e fiscal da WT Administração; a apuração sobre a origem dos recursos usados nas entradas dos financiamentos e pagamentos à vista; e o desdobramento da delação ou colaboração de eventuais operadores financeiros citados nos inquéritos, como Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, cujo apartamento em São Paulo também foi adquirido pela empresa de Willer. Para o mercado e para a política, o tamanho da conta — R$ 62 milhões em poucos anos — continua sendo a pergunta sem resposta definitiva.
