Três lendas do futebol feminino brasileiro ocuparam uma escola municipal no Rio de Janeiro na última quarta-feira (21) — e o que disseram às alunas vai muito além de chuteiras e gols. Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins, conhecidas como Caju, Fia e Pelezinha, contaram como superaram uma proibição legal que durou quase quatro décadas.
O evento marcou o lançamento do programa Pioneiras nas Escolas, que leva ex-atletas da seleção para a rede pública de ensino. A atividade aconteceu na Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, unidade classificada como Ginásio Experimental Olímpico desde 2012.
O decreto que silenciou gerações
Entre 1941 e 1979, o Decreto-Lei 3.199 vetou a participação de mulheres no futebol, alegando incompatibilidade com a “natureza feminina”. A regulamentação só veio em 1983. A primeira seleção brasileira disputou competição experimental apenas em 1988, na China. A Copa do Mundo feminina estrearia três anos depois.
Para a estudante Nicoly Melo, de 12 anos, a revelação soou inverossímil: “Por que não podiam?”. A pergunta ecoou no auditório lotado por mais de 100 alunas antes do minitorneio no campo — onde só meninas jogavam, enquanto meninos assistiam da arquibancada.
Machismo dentro e fora das quatro linhas
Fia, hoje com 62 anos, foi tricampeã continental e disputou a primeira Copa e a primeira Olimpíada (Atlanta-1996). “Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo”, resumiu. Caju, ex-zagueira com 43 jogos e 34 vitórias pela seleção entre 1988 e 1999, relatou provocações da torcida: “Vários torcedores diziam que mulher não servia para jogar futebol”.
“Aquelas palavras mexiam com nosso ego, e a gente queria, mais e mais, mostrar que mulher sabe jogar”, completou a atual árbitra. Pelezinha reforçou que a resposta vinha no desempenho, não no discurso.
Estudos: o plano B que vira plano A
A coordenadora do projeto, Duda Luizelli — ex-seleção, Internacional, Milan e Verona —, direcionou o foco para além do gramado: “O estudo é muito importante porque, mesmo quem for ser atleta, terá uma carreira muito curta. Com 38, 39 anos, acabou a nossa carreira e nós temos que dar uma continuidade”.
A Secretaria Municipal de Educação do Rio é parceira da iniciativa. A rede conta atualmente com 12 GEOs, unidades de ensino integral com treinadores em 19 modalidades. O modelo nasceu como legado da Rio 2016.
Copa 2027 no horizonte
Caroline Guedes, coordenadora de Projetos Integradores da SME, conecta o programa à preparação da cidade para a Copa do Mundo feminina de 2027, que terá o Rio como uma das oito sedes entre junho e julho do próximo ano. “É muito importante que a gente já esteja se preparando para esse momento”.
A aluna Letícia Pereira, 15 anos, do 9º ano, definiu a experiência como “privilégio” e “meio caminho andado para as alunas por mostrar que o esporte também dá futuro, sim”. Confirmou presença nos jogos: “Meu pai me leva lá, eu fico lá torcendo”.
O que observar daqui para frente
O Pioneiras nas Escolas deve expandir para outras unidades da rede até a Copa. A aposta é que o contato direto com referências históricas aumente a adesão de meninas ao esporte escolar e, no médio prazo, alimente a base da seleção. Para gestores e investidores, o movimento sinaliza crescimento do ecossistema feminino — infraestrutura, patrocínio e audiência tendem a seguir a mesma curva.
