A indústria gráfica brasileira registrou um salto de 25% na receita durante o último ciclo eleitoral, um alívio inesperado após anos de encolhimento. O volume de papel impresso foi suficiente para entregar um folheto a 63% de todo o eleitorado nacional. Mas o que explica essa volta por cima justamente na era do marketing digital?
O fôlego que o caixa precisava
Donos de gráficas relatam turnos triplos de produção para dar conta da demanda. A maior encomenda única registrada chegou a 100 milhões de folhetos de quatro páginas, vinda de uma única sigla partidária. Para o setor, que vinha de retração contínua, o dinheiro em caixa garante sobrevida operacional pelo menos até o primeiro semestre de 2027.
O crescimento contrasta com o primeiro semestre de 2025, quando a produção física caiu 4,3%. O núcleo tradicional de “atividades de impressão” — livros, revistas e impressos de segurança — desabou 7,1%, vítima direta da substituição pelo digital. A pandemia agravou o cenário: queda de 25% na produção total em 2020, com o segmento de impressão encolhendo quase 39%.
Por que o papel venceu o WhatsApp?
A explicação não está na nostalgia, mas na desconfiança. Dirigentes ouvidos pelo mercado relatam que partidos optaram por campanhas híbridas porque eleitores passaram a desconfiar de mensagens recebidas por aplicativos. O material impresso ganhou status de “prova física” de propostas, algo que não some do feed da noite para o dia.
Há também um fator técnico decisivo: a regra que proíbe celular na cabine de votação. Com cinco votos a serem digitados — números que variam de dois a cinco dígitos —, o “santinho” virou a única cola confiável e legal permitida na urna.
- Voto em 5 cargos: Presidente, Governador, Senador, Dep. Federal, Dep. Estadual.
- Complexidade numérica: De 2 dígitos (majoritários) a 5 dígitos (proporcionais).
- Restrição: Celular proibido na cabine desde 2022.
A fragmentação que engordou o faturamento
Cientistas políticos apontam que a pulverização das disputas obrigou campanhas a disputarem cada voto em territórios específicos. Quanto mais acirrado e fragmentado o pleito, maior a necessidade de “carpet bombing” de material impresso nos redutos eleitorais.
Não foi um ganho democrático, porém. As encomendas concentraram-se em gráficas de grande porte, capazes de receber pedidos às 19h e entregar prontos às 8h da manhã seguinte. Pequenas e médias empresas, sem capacidade logística para esse “just in time” agressivo, ficaram à margem do boom.
O que observar daqui para frente
O setor ganhou tempo, não a cura estrutural. A tendência de substituição do papel por meios eletrônicos em editoriais e segurança continua. A estratégia de sobrevivência passa pela diversificação: catálogos, embalagens, rótulos e etiquetas já absorvem parte da ociosa capacidade instalada.
Para investidores e gestores, o sinal é claro: o ciclo eleitoral funciona como um “sazonalidade garantida” de alta margem e curto prazo, mas exige parque fabril dimensionado para picos extremos de velocidade. Quem não tiver automação e logística noturna em 2026 continuará vendo o comboio passar.
